Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

2/11/09

BENS

Por vezes é preciso analisar cuidadosamente o tempo disponível e gastá-lo todo num planejamento meticuloso do que poderia ser feito por ele mesmo - durante esse próprio tempo - sem maiores elucubrações. Depois, sair correndo atrasado, pois o planejamento do tempo gastou o tempo antes livre. Acumularam-se tarefas por fazer, acumularam-se atrasos. Tornou-se essencial resistir às provocações que serão outras atividades criadas, surgidas do nada e para nada destinadas.

Tal como um passatempo, passar a vida rogando por mais tempo e por mais tempo a fim de que seja o bem mais precioso e mais empobrecedor da nossa existência. Rezar com fervor para não sermos cobrados pelo tempo que desempregamos. Até nos despedirmos, como faço agora, pois estou sem tempo pra continuar esta lengalenga “destemperada”…

[Adhemar - Santo André, 15/01/2007]

E por falar em tempo…

Um afetuoso abraço e um terno beijo à minha madrinha, mãe de minha mãe, a Vó Júlia. Completa hoje 95 anos de existência, quase toda ela voltada para a família: além dos próprios pais, irmãos e irmãs, o Vô, as 5 filhas, 12 netos, 13 bisnetos e uma tataraneta! Incontáveis amigos e admiradores. Será que contei direito? Hoje, o fã clube vai se reunir em torno dela (uma de suas maiores alegrias). Até já, Vó!

Adhemar, 02/11/2009.

criado por adhbrgsz    8:56 — Arquivado em: Brincadeira!, Prosa

1/11/09

Implicâncias desérticas

No auge do trajeto, pouso forçado.
Deserto.
Uma inundação de nada,
absoluta e refratária.

Nos olhos,
um brilho dolorido por todos os lados.
Uma única fumaça sai da lata arregaçada.
Narinas ressecadas, pulmões opressos.
Um enorme calor enregelante,
pés inchados.

No mais alto,
um inclemente azul rascante.
Nem garganta, nem dentes.
A boca faz o gesto desnecessário
a procura do que não há,
dentro da sede.

Fusão de pensamentos.
Fusão de areia e céu no horizonte.
Elétricas tempestades,
elétricas ausências;
as mãos inquietas
evitando acenos vãos.

Visão de oásis,
folha quebrada pelo inexistente vento.
A mais absoluta solidão
entrando dentro,
numa discreta algazarra
de abandono e lassidão.

[Adhemar - São Paulo, 28/07/2008]

criado por adhbrgsz    9:10 — Arquivado em: Poesia

31/10/09

Primeiro amor adolescente

Longínquos sinais, tardios acenos.
Sopros suaves, ventos amenos.
Furtivos suspiros, inocentes folguedos.
Fugidios sorrisos, esquecidos brinquedos.

Uns breves toques propositais
dados por perdidos.
Uns fingidos desvios nem tão casuais,
faces e olhos ardidos.

Tanto esforço de atitudes parecendo normais…
Intra-peito, um coração fugitivo.
E lábios que nunca beijaram querendo mais,
querendo tudo, um mergulho impulsivo.

Até que a saudade cause lágrimas mortais
por essa dor nunca antes sentida;
nessa certeza de que todos os amores são fatais
até que morra o primeiro e surja outro em nossa vida…

[Adhemar -  Santo André, 13/11/2008]

criado por adhbrgsz    7:37 — Arquivado em: Poesia

29/10/09

MAIS DE MIL

Ela vai, passa de leve, flutuando,
enquanto mil pares de olhos acompanham.
Conforme o movimento do oceano,
o corpo leve e solto vai andando.

Cabelos… Ah, cabelos! Vão balançando
em suave concorrência com o vento;
e vão tão soltos e vão leves tão sem tempo,
mil corações sobressaltados açoitando.

Volta zangada, mil cabeças vão virando;
sem importar-se, passo a passo, decidida,
já que é vaidosa e a paquera - inoportuna!

Sua conquista em mil cérebros é a fortuna
e ela não liga, nem dá bola pra torcida;
deixa pra trás mil diafragmas suspirando…

P/ K.
[Adhemar - São Paulo, 01/10/1987]

criado por adhbrgsz    23:11 — Arquivado em: Poesia

28/10/09

Batidas aéreas

O reflexo.
O ar contido numa bolha.
Um som indefinível
estranhamente silencioso;
cores múltiplas se dividindo
e se espalhando.

O reflexo.
O reflexo feito uma janela
pra se olhar os sonhos.
Sonhos coloridos se dividindo
e se espalhando.

De repente o ar se expande.
Sonhos, luzes e reflexos
se libertando.
Um som mais definido
se ampliando, gritando.
A bolha, rompida,
se esconde.
Ganha o espaço
esse multitudo se comunicando!

P/ Maria Cristina Sanna
[Adhemar - 19/10/2009]

Prima

Brilhante e colorida, cosmopolita, extremamente convicta, grande parceira nos prélios de buraco, esporte predileto da gente! Feliz Aniversário, Cris, pontualmente com o atraso de sempre!

Adh2, 28/10/2009.

criado por adhbrgsz    22:23 — Arquivado em: Poesia

25/10/09

Profundidade

A gente nunca chega a conhecer completamente às pessoas. Aliás, a gente nunca chega a conhecer completamente nem à nós mesmos! Capacidades inatas, caráter, profundidade da alma… Enfim, podemos conviver conosco por uma eternidade de tempo sem perceber certos potenciais, sem reparar em alguns defeitos.

Somos uma espécie de bar onde há solitários, fanfarrões, bêbados e sóbrios, todos perdidos entre discussões inúteis e silêncios dispensáveis. Nesse interminável anoitecer, a gente vai ignorando o próprio cinismo. Aí, defrontamo-nos com esse nem tão estranho desconhecido que nos diz coisas vagamente familiares e que a gente entende mesmo em meio ao maior tumulto. Depois se lembra aonde tinha visto o ilustre e famoso quem: no próprio espelho…!

A gente fica tão distante de si mesmo que nos perdemos em meio a idéias e caminhos embaralhados, atitudes diversas, variadas, indecisas. Coça a cabeça, olha para os lados e senta próximo ao balcão esperando a próxima revelação: uma apresentação formal de nós, por nós, numa imprescindível - ainda que tardia -  confraternização.

[Adhemar - São Caetano do Sul, 04a10/10/2005]

criado por adhbrgsz    8:50 — Arquivado em: Brincadeira!, Prosa

24/10/09

INGRATO

A minha rosa morreu;
morreu, murchou e secou.
No vaso permaneceu
enquanto a ilusão durou.

Descuido, desleixo? Talvez.
Mas longe eu fui, viajei,
procurar a cura da embriaguez
que, aliás, não encontrei.

E a rosa ficou sozinha
enquanto eu tentava espalhar
saudades de uma agonia
onde quer que pudesse passar.

Deixei-a abandonada
e degustei o dissabor…
Só eu poderia cuidá-la
como não cuidei do amor.

Frustrado, há tanto tempo voltei,
sem ter conseguido espalhar,
nos lugares onde passei,
a saudade que vem me calar.

Sem ter conseguido esquecer
o que agora ainda importa,
continuando a amar e sofrer
pela rosa que ora está morta.

Frustrado, arranco do vaso,
o talo seco que restou.
Chorando, constato arrasado
a raiz que ela criou…

O pirata acusou o vaso
- tão bem tratado e cuidado -
de infecundo e mordaz descaso;
um pirata claramente emocionado…

A rosa criara raiz
e o pirata descuidado
sepultou-a no seu país
junto ao amor, lado a lado.

Pirata não tem país,
nem terra, bandeira ou amém.
Pirata não tem passado,
nem futuro também.

Aporta em qualquer canto,
viaja por anos a fio.
Cantando leva espanto
e alma ao seu navio.

Pirata infeliz? Talvez.
Só não conseguiu esquecer
que não haverá outra vez
para a rosa do amor reviver…

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 16/05/1988]

criado por adhbrgsz    20:00 — Arquivado em: Poesia

22/10/09

Para saber…

Andava muito iludido
e consultei o coração
se não andava confundido
procurando confusão.

Ele calado: sim e não.
Mas não havia respondido
à delicada questão
de que estava escondido.

Mas ficou perturbado,
perdido no amor - paixão -
como se o tempo, escalado…

Precisou de uma lição
ficando desconsolado
e condenado à prisão…

[Adhemar - São Caetano do Sul, 12/05/2005]

criado por adhbrgsz    23:19 — Arquivado em: Poesia

18/10/09

Toque

Tua silhueta some,
evola-se no ar feito fumaça.
Sinto um vazio tão grande quanto intenso.
Enquanto isso, teu incenso assa.

O teu espírito,
que se exala e me perfuma,
vai me ocupando tão quente quanto adocicado,
me envolvendo em bruma e me deixando assado.

Teu vulto nítido,
me contorna e me ameaça.
Vai me invadindo sem saber o que se passa
e, quando sabe, bem lá dentro do meu peito ele se esconde…

P/SHFC
[Adhemar - São Paulo, 11/05/1987]

criado por adhbrgsz    12:11 — Arquivado em: Poesia

17/10/09

DESCUIDO

E foi assim por acaso,
num gesto cheio de tentativa
que levantou-se uma hipótese
pouco provável e muito ativa.

Atirou-se uma pedra ao momento
que o vento nem desviou.
Atirou-se um insulto ao tempo
que pouco o incomodou.

E foi assim um acinte,
uma ofensa grave e teimosa.
Queimou-se a boca livre,
fechou-se a boca ruidosa.

E foi assim entre dentes,
o murmúrio da injúria
que por acaso a intenção
virou situação de penúria.

Inteiramente ao acaso
a boa intenção se perdeu.
O “por que” não vem ao caso
mas a incúria venceu.

Do mal entendido surgiu
pendência que não se encerra
e foi assim que se assistiu
o início de uma guerra.

E sem temor nem razão
a beligerância assume
uma tal proporção
que não se acaba nem se resume.

À paz, ao amor, ao perdão,
os homens preferem brigar.
Cegos de ódio ou paixão
por causas quem nem sabem lembrar…

[Adhemar - São Paulo, 12/10/2009]

criado por adhbrgsz    22:53 — Arquivado em: Poesia
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