Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

19

de
junho

Segredo

Rasguei meu papel em dois pedaços.
Poderia dizer mil, ou cem, menos ou mais.
Mas rasguei o meu papel em dois pedaços.
“Por que?” Pensei.
“Por que só dois?”
A resposta mais sincera é “não sei”.
Rasgados estão,
cada um para o seu lado.
Estão em branco?
Algum segredo revelado?
E rasgar,
ao invés de ter amassado,
significa alguma coisa?
Também não sei.
O que sei é que está o papel rasgado;
não em mil e nem em cem.
São apenas dois pedaços,
nada em branco,
os quatro lados…

[Adhemar - São Paulo, 28/02/2011]

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18

de
junho

FRATERNIDADES

Um momento que passa,
um pensamento que se perde.
Se perde entre as dúvidas,
entre perguntas que não deveriam ser feitas.
Um momento em que se busca
um acesso à própria filosofia.

Um momento que passa,
querendo ficar;
querendo entrar sem bater à porta.
E passa diante da porta fechada,
da mente fechada,
levando o pensamento que se perde.

Retornam as perguntas
cujas quais melhor não saber as respostas.
Porta fechada,
casa abandonada
aguardando o retorno do nunca mais.

[Adhemar - Montevideo, 07/01/2011]

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5

de
junho

Desgarramento

Confusão.
Propositalmente, os novos profetas mentem.
Acenam com um tempo vão.
Os novos profetas mentem!
Inúmeros seguidores,
fanáticos sem razão!
Um futuro feito de promessas,
de palavras enfeitadas
sem conteúdo de ação.

Mobilização.
Propositalmente, os falsos profetas mobilizam
e emocionam a multidão.
As verdades dos falsos profetas,
as mentiras dos novos profetas
e a comoção.
A comoção dos seguidores,
que não questionam,
não rompem a bolha da ilusão;
que forjam seus falsos ídolos
sem ricas embalagens
dignas de adoração.

Primária opção.
Falsos e novos profetas
com suas hábeis palavras -
mentira e agitação.
Arrastando ouvintes fanatizados
que brigam sem saber por que,
mas com paixão.
Nas cúpulas, risos e falsidade;
nas ruas, festejos inglórios
enquanto durar essa prestidigitação.

[Adhemar - São Paulo, 28/09/2010]

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29

de
maio

FINALMENTE EM PARIS!

Tenho por hábito não me deixar entusiasmar por nada nem aplaudir antecipadamente sem saber se vale. Inclusive, tento desmistificar aquilo que é por demais badalado. Mas isso foi só até chegar em Paris. O impacto da cidade nas minhas retinas, depois o caminhar pelas suas ruas de perspectivas singulares me fizeram repensar se Paris não é, realmente, única no mundo. E, ao exclamar “Paris c’est unique” - uma besteira que francês nenhum entendeu - tive que exclamar de novo: “Paris é a mais bela cidade do mundo”; e aí o francês concordou.

Não há vista  de nenhuma rua que não seja bonita; e as pontes sobre o rio Sena, então! A formidável Torre Eiffel, diante da qual, entre admirado e apequenado, não tive coragem de subir. Bem, estas foram só as impressões do primeiro dia, os tornozelos doendo por ter percorrido todas as alas do Louvre sem no entanto sequer ter fixado os olhos em 3 ou 4% de suas obras. Daí o riso maroto da Gioconda…

Paris é realmente especial e acolhe, democraticamente, os curiosos e fãs do mundo todo em suas ruas acolhedoras e o seu jeito parisiense de ser. Algo que é preciso ser visto para se entender.

[Adhemar - Paris, 18/04/2011]

AB)

Notre Dame, vista por trás (foto: AB)

Adh2bs)

Rio Sena, Notre Dame ao fundo (foto: Adh2bs)

Adh2bs)

Rio Sena (foto: Adh2bs)

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28

de
maio

Depois de amanhã

 

Já cortei muito papel,
já fiz margem em folha;
já desenhei cemitério,
usina de lixo
e com sabão já fiz bolha.

Já fui pra fora de mim mesmo,
já andei fora do Brasil.
Já fiz rima perigosa,
curvas em duas rodas
e acelerei até mil.

Nunca fumei um cigarro,
nunca fiquei de pileque;
nunca disse quase nunca
e tem coisas que não entendi.
Já fui maduro, menino,
e moço banquei o moleque.

Em rimas já me perdi,
botei verso a mais em estrofe.
Às moças que namorei
dediquei mais do que escrevi.
Caminhando fui além,
parado até viajei.

Não dei a volta no mundo,
também não fui a Paris.
Hoje escrevo pro futuro
o que de ontem pra hoje escrevi.

Amanhã não sei onde estarei,
os planos, algures, esqueci.
Posso voltar onde já estive,
acenar de longe, “may be”,
lugares que lembrarei.

Faço a vida um dia por vez.
Então, até amanhã, talvez…

[Adhemar - São Paulo, 22/09/2010]

Antes de ontem

O destino, a boa sorte e a fé fizeram contrariar um dos versos; eu que tantas vezes voltei aonde já estive. Deve-se dizer que a fé e a boa sorte de Stella me levaram a Paris, em abril.

Adhemar, 28/05/2011.

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20

de
maio

SUTILEZAS

O jeito de andar,
o jeito de olhar,
mãos postas nos joelhos ao sentar.
Balançar os cabelos,
se levantar,
o jeito de olhar,
o jeito de andar.
Mãos postas na cintura,
balançar os quadris,
levantar os braços;
ajeitar os cabelos,
revirar os olhos,
andar outra vez.
Andar e parar -
à toa e de repente.
Girar o corpo nos calcanhares,
quase saltar.
O jeito de olhar,
de ajeitar a roupa,
de voltar a andar;
olhar a vitrine,
enfim suspirar
e entrar na loja…

[Adhemar - Buenos Aires, 11/01/2011]

 

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8

de
maio

Arqueologia

Quando o futuro nos encontrar, já fósseis primitivos de nossa pré-história atual, fundidos em pedras, desenhados nas paredes de nossas modernas cavernas e também em cartões de memória ou em discos;

quando o futuro nos escavar, desenterrando assim nosso esqueleto e nossos esquisitos costumes, embalsamados nas substâncias exaladas ou inventadas por nossos pensamentos primitivos;

quando o futuro intrigado nos estudar estranhando os sinais de nossa pretensa civilização - e vai rir por vários motivos -

quando o futuro nos exibir como relíquias em seus espetaculares museus pra nova gente se admirar desse momento em que traços de humanidade - fracos, é verdade - se apresentam;

quando o futuro preferir nos ignorar achando que nada temos a ensinar, visto que estaremos extintos - incapazes de sobreviver no nosso próprio mundo que tornamos hostil -

quando o futuro chegar - esse futuro em que não estaremos mais aqui - seremos apenas uma pálida amostra de uma espécie simplesmente imbecil.

[Adhemar - São Paulo, 03/10/2010]

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1

de
maio

PAISAGEM ESTELAR

 

Estranhas estrelas,
essas que nos acompanham
acompanhadas de brumas que parecem mar;
e refletidas no mar parecendo nuvens.
A difusa linha do horizonte
parecendo balançar
ao vento que não se vê.

Estranhas palavras,
essas que não se consegue pronunciar,
acompanhadas de espuma
e frio e ar.
A confusa linha do entendimento,
subjetivo e particular,
parecendo querer dizer outra coisa,
infinita e espetacular.

Estranhas luzes,
essas agrupadas ao longe,
acompanhadas de aura e sombras,
parecendo querer falar;
falar de escuridão, de calor,
de andanças por aí
e de retorno ao lar…

[Adhemar - sobrevoando o Brasil na volta à São Paulo, 23/04/2011]


Torre Eiffel ao entardecer (foto: SM)


Torre Eiffel ao anoitecer (foto: SM)

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10

de
abril

Velhas impressões

 

Olhar atentamente em volta - em qualquer lugar -
para reforçar os próprios conceitos.
Idéias arraigadas,
princípios antigos a se confirmar por observações.
Por exemplo, a passionalidade das paixões.
Por exemplo, a repetição de comportamentos;
diferentes culturas, mesmas atitudes…
Homens e mulheres,
pobres, remediados e ricos,
executivos, tecnocratas, artistas;
motoristas, garçons,
profissionais liberais,
ou ladrões…
E, vagabundos de plantão.

Em qualquer lugar do mundo estarão sempre a confirmar nossas velhas impressões.

[Adhemar - Buenos Aires, 09/01/2011]

SM)

Museu de Arte Decorativa - entrada - Buenos Aires (foto: SM)

SM)

Museu de Arte Decorativa - Buenos Aires (foto: SM)

AB)

Arco-íris - Recoleta, Buenos Aires (foto: AB)

Impressões coloridas

Um dos maiores, mais belos e duradouros arco-íris que já vi na vida. Momento raro: visitamos o “Buenos Aires Art eDesign”, na saída nos deparamos com o belo espetáculo desse arco-íris incrível. Entramos no Centro Cultural Recoleta, logo ao lado e, ao sairmos, lá estava o imponente arco-íris nos aguardando. Sem cansar de contemplá-lo, entramos na Igreja Nossa Senhora del Pilar (todas essas edificações são contíguas); e não é que o show não havia acabado? Tiramos inúmeras fotos, sendo as primeiras mais de uma hora antes das últimas! Quando resolvemos ir embora, ele ainda estava esmaecendo no céu nublado de um final de tarde inesquecível. Talvez seja exagero tanto entusiasmo diante de um arco-íris; mas é uma manifestação tão bonita da natureza que não podia deixar de registrar quão marcante foi pra gente, em circusntâncias especiais que podem tê-lo feito parecer maior do que realmente foi…

Adhemar, 10 de abril, 2011

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10

de
abril

Ópera

Já perdi o rumo por distração.
Já tropecei na rua,
por um pedaço de mau caminho
e perdi a condução.

Já fiquei olhando o céu
e contando os passarinhos
enquanto o pessoal, desesperado,
fugia do fogaréu.

Já fui bombeiro, bom menino,
jogador e bacharel.
Até hoje ainda sonho
sorrindo devagarinho.

Já virei noites dançando,
já estendi o meu chapéu.
Já dei esmolas generosas
e vi o tempo passar voando.

Já abracei e fui andando,
olhando apenas pra frente;
me igualei pra ser diferente
e já fui, estou voltando…!

[Adhemar - São Paulo, 31/08/2010]

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