Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

31/3/08

Hoje

"Hoje me deu uma estranha vontade de não parar… Não parar de escrever. Larguei o que estava fazendo, mergulhei nos pesamentos deixando sair o que bem estivesse passando no côco."

"Hoje me deu uma estranha vontade de abraçar o mundo. Passar a mão em sua cabeça, mitigar com carinho suas aflições e angústias. Bateu um estranho medo de perder a emoção e a capacidade de sentir as misérias e alegrias da vida e suas complicações. Compulsão ou histeria, num estranho desalento em razão do que podemos fazer. Será que só a nossa parte basta?"

"Hoje, me deu uma estranha vontade de peregrinar por aí. Aprender e entender como funcionam os mecanismos da criação, os por quês das desgraças, das alegrias, das frustações, do sucesso. Um inconformismo com o já vivido perante o que falta viver. Uma estranha fúria pelo desperdício, uma estranha alegria pelo pouco bem feito."

"Hoje me fiz uma estranha promessa, renovada, de não adiar mais nada."

Adhemar, 31/03/2008

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Permeio

 

Fixam os olhos um ponto no horizonte.
Firma-se a mão no apoio imaginário.
Pé-ante-pé, um passo arbitrário,
gotas de suor inundando a fronte.

Folha por folha forram o chão de outono,
o tear entrelaça fios vermelhos de tapetes
numa festa de serpentinas e confetes,
eleito um rei que é só festa e trono.

Tremem os olhos, no horizonte um ponto.
Tremem as mãos do imaginário apoio.
Tremem as águas, sobressaltando o arroio…
Treme o rei, desalentado e tonto.

Voam as águias, atentas presa  à presa
e escondem-se delas os pequenos animais.
Esconde-se o tempo, que não volta atrás
e morre o vento, de lágrimas e tristeza.

Bem a tempo, o herói ressucita e levanta.
Forma uma banda, ensaia, toca e canta.
Recupera a um só tempo alegria, ânimo e vida,
tempera as tintas na tela colorida.

Acena ao céu, salva as águias e os bichinhos,
salva a flora, a fauna, a forma e a glória;
faz a fama, faz fortuna e faz história,
dá exemplos a bandidos e mocinhos.

Na doçura da existência e da alegria
realiza o herói um belo sonho:
com linda princesa contrai um matrimônio
e é um feliz casal, Herói e Utopia.

[Adhemar - S. Paulo, 12/03/2007]

De permeio, um belo pôr do sol que me mandaram.

Adhemar, 31/03/2008.

criado por adhbrgsz    11:46 — Arquivado em: Poesia

30/3/08

Conflito

 

"Areia nos olhos,
peso nos ombros;
escolhas, restolhos,
ruínas, escombros."

"Guerra infinita,
antagonista perdida.
O tempo agoniza 
numa tumba escondida."

"Pagamento ou troca,
negócio ou escambo
recolhido na toca
cada passo é um tombo."

"Ora fora, ora dentro,
à esquerda ou direita;
ou acima, ou no centro,
tão cansada, não deita."

"O nervoso, a tensão
nem dissipa nem tenta.
Na calma, na confusão
simplesmente aguenta."

"Livrou armas na fuga;
só deixou provisão:
uma faca, uma luva,
chocolate e pão."

"A corda, o cantil,
a esperteza, o terreno.
Um mapa sutil,
um código pleno."

"Uma pena, o papel,
uma idéia, um rito.
Uma prece pro céu,
um murmúrio e um grito."

[Adhemar - S. Paulo, 13/12/2004]

criado por adhbrgsz    14:54 — Arquivado em: Poesia

IDA

"Por onde ir é uma questão recorrente. Estamos sempre procurando e as invenções nos levam à distração de ficar olhando os novos meios de transporte. Então, quando despertamos desses doces devaneios tecnológicos, estamos atrasados, perdidos e desorientados."

"Com quem ir é uma questão delicada. Sempre parecerá que poderemos nos fazer acompanhar por todos ou, por qualquer um. Mas, na prática, muitos nos rejeitam, outros querem impor o seu próprio itinerário; alguns planejam excessivamente o trajeto, as paradas e o destino. Há quem não queira sair do lugar. E há quem vá totalmente indiferente aos meios, aos rumos e ao ponto final."

"O que levar depende da disposição que se tem no que se vai fazer pelo caminho. Na produção de idéias e coisas, atitudes e decisões. A comunicação - se necessária -  com os acompanhantes, os circusntantes e os transeuntes. A publicidade que  vai agitar, pública ou particular, à torcida, aos inimigos e aos civis…"

"Finalmente, a dependência de uma filosofia concreta ou arbitrária, pensamentos passando tão rápidos que a bagagem estará composta de loucura. Definições tão exatas num repertório variado e aberto, que a loucura parecerá uma lucidez lúdica, lógica e sensacional. E, até que enfim, partir para esse mundo artificial de cientistas, românticos e poetas."

[Adhemar - Sto. André, 01/11/2004]

criado por adhbrgsz    14:31 — Arquivado em: Prosa

29/3/08

Ambiente

"Barulhos noturnos. Cheiro de pão. Mais de duas horas da manhã. O intenso silêncio da noite, carros ao longe, o zumbido da geladeira, a respiração das pessoas dormindo; os pingos da goteira vão se espaçando no seu ribombar nas calhas. A chuva cedeu seu espaço ao vento. Para escrever certas letras, é preciso parar e pensar. A copa de uma árvore toca reco-reco num telhado. Tic-tac, tic-tac. O incansável relógio faz o acompanhamento aos outros ruídos sutis: passos na rua molhada, o reflexo da luz nas paredes entrevisto pelas frestas das janelas. Súbito, a geladeira pára com um, dois, três estalos; esticam-se braços, farfalham lençóis ao movimento dos ‘dormintes’, cai uma gota da torneira da pia na cuba de inox. O cheiro de pão tranforma-se no ruído do saco se abrindo, do esgarçar a casca crocante da boca mordendo e os dentes mastigando. Nada do silêncio da faca na manteiga. Só pão. E o dia desponta clareando ruidosamente, a rua, o bairro, a cidade e a mente de alguém que passou a noite desperto para sentir a beleza de viver. Mesmo silenciosamente…"

[Adhemar - S. Paulo, 10/05/2003]

criado por adhbrgsz    17:23 — Arquivado em: Prosa

FATOS

"Deu-se que Fulano morreu. Assim, de repente, e ele nem percebera. Quando começou a desconfiar, já estava na enorme ante-sala de recepção, entre o céu e o inferno. Então, mais conformado, começou a olhar em volta e apreender a situação: diante de uma enorme mesa, ao centro, estendia-se uma fila interminável de pessoas, digo, almas, que não parava de aumentar. Ao longo da imensa mesa central, centenas de atendentes confinados por uma espécie de guichê, iam recebendo os aflitos desencarnados, procurando minimizar sua confusão mental; e após uma espécie de tácito acordo, os espíritos dirigiam-se alternadamente ora para a porta do céu, ora para a porta do inferno. Intrigado com tamanha precisão na distribuição do pessoal, o Fulano dirigiu-se diretamente a um guichê que acabara de vagar - mesmo diante do protesto do espírito que chegava e de quem era a vez:"

"- Por favor, mocinha, uma informação?"

"- Qual sua senha, senhor…?"

"- Eu não peguei a fila não. Mas por que é que vai um sim, um não, pro céu e pro inferno?"

"- Bem, senhor, já que perguntou…"

"E rabiscou uma espécie de formulário que entregou ao recém-chegado, indicando uma terceira porta que ele, até então, não notara: VIA ALTERNATIVA. E ele foi, mais intrigado ainda, porque ela dissera que o purgatório era no vestíbulo de cada um dos departamentos - um no céu, outro no próprio inferno. Foi pensando nisso que abriu a porta. Ao entrar, caiu no vazio; a princípio, muito claro, caiu devagar. A medida que caía mais rápido, ia escurecendo também, até o escuro total numa velocidade vertiginosa; até o baque, brusco, violento e dolorido. Abriu os olhos, se achou em sua própria cama numa manhã qualquer de abril."

[Adhemar - Sto. André, 21/10/2005]

O fato:

A princípio, me parece o relato de um sonho deveras sonhado; ou terá sido só um cochilo sobre a mesa, no serviço? Apesar que o rascunho não está babado…

Adhemar, 29/03/2008

criado por adhbrgsz    17:02 — Arquivado em: Prosa

28/3/08

Boatos

"Ouvi falar de você, por aí, mania de ouvir! 
Pare de dar bandeira, ou ninguém haverá de parar de falar. 
Seu sonho de gás evolou-se na academia,
a sua grande mania: alugar, reformar, ampliar…"

"Tá cheio de gente querendo ver seu balão estourar,  
parede sem casca, bolor a mofar. 
Você pendurou toda a sua alegria no mercado central; 
tanta mercadoria, tanto blá, coisa e tal.  
Espalhou que era mestre e profissional, 
sua fama correu, aumentou, carnaval!"

"Mas aí o caldo entornou,
caiu uma árvore bem na rua principal.  
Você se escondeu, se amoitou,
foi parar no hospital. 
Sua pose caiu, sua imagem ruiu,
despencou do pedestal."

"E agora você, que nem os cacos catou,
volta à tona, bacana, normal;  
por cima do chão que pisa,
por baixo do céu do quintal. 
Vem com a mesma pantomima,
gingado, balanço total;  
não aprendeu nas quedas, nos ovos que pisa mal.  
Dá panos aos fofoqueiros, faz a alegria geral. 
Voltou pra boca do povo, sem glória e sem capital!"

"Ouvi falar de você, por aí, e é só pau…"

[Adhemar - S. Paulo, 20/11/2003]

Escrito no ônibus, na volta do trabalho, atrás de duas fofoqueiras referindo-se a alguém, pretensamente muito convencido. Lá pelo meio da conversa, o coletivo entrou numa rua onde, de fato, havia caído uma árvore; há outras referências no texto de elementos do trajeto, entremeados com eventuais elementos da conversa. Ops, desculpem; eu disse duas fofoqueiras? Esqueci de mencionar um mal-educado xereta que ficou ouvindo a conversa…

Adhemar, 28/03/2008.

criado por adhbrgsz    17:20 — Arquivado em: Poesia

Navegantes

 

Este ‘post’ é dirigido ao comentarista mais frequente deste espaço. Mas vale pra todos.

Prezado AABS; respondendo sua pergunta inicial, ‘conosco mesmos’ é, no mínimo, muito esquisito. Estava a ponto de te chamar de analfabeto, quando me dei conta que também não sei! Portanto, ignorância em matéria de língua pátria é conosco mesmo, assim no singular. Se o ACS ou LAS estiverem nos lendo, por favor, elucidem. O convite vale a outros navegantes mais versados para explicar a questão. Quanto à qualidade ou tema das fotografias, este sofrível poeta e não muito melhor arquiteto estaria irremediavelmente ferrado (com o perdão da má palavra) se dependesse de ser fotógrafo. E olhando especificamente a foto da praia, concluí que poderia ser qualquer uma, função do ângulo, enquadramento, foco e assunto. Então, peço-lhe que acredite que foi tirada em Ilhéus, de fato.

Para finalizar, vejo que enrolação é conosco mesmo. Abração, fui.

Adhemar, 28/03/2008

Projeto de 1996 ou 1997, ainda não construído para Igreja de Santa Luzia, em Mauá / SP. De vez em quando sonho em ganhar sozinho na mega-sena para construí-lo, de tão bonito que eu acho que é. A iluminação natural incidindo na nave e no altar, a acolhida aos fiéis que a forma de concha dá… O salão paroquial (edificação retangular que se vê a esquerda) a comunidade já fez.

criado por adhbrgsz    17:03 — Arquivado em: Arquitetura, Opinião

27/3/08

Futuro

 

"O que vai ser um talvez… Refletir, pensar, concluir; a parte fácil da coisa. no entanto, a decisão pesa. Implica novos riscos, outros desafios, andar noutra direção. Tudo tão parecido e tão novo, tão diferente! Até as letras intermitentes, o mesmo papel de sempre. Até as falhas da caneta, no rascunho."

"Uma guinada, um desvio de rota. Um novo caminho para ir ao mesmo lugar; lugar concebido num antigamente de antes de nascerem as atuais certezas, ideais e projetos. Que se enrolaram e confundiram após tantas voltas. E trouxeram o desejo de recomeçar saindo de um novo ponto de partida, após um duro aprendizado de muitas humilhações e poucas satisfações. De gatos andando nos telhados; de gotas pingando dos beirais; de ondas num mar revôlto; de calmarias, de temporais. De rimas perdidas sem poesias, de tempo perdido em dias e dias. E, de novo, o marco zero. Com repertório variado; visão mais ampla da própria miséria."

"E tudo acabar ou começar num talvez…"

[Adhemar - S. Paulo, 03/11/2003]

Este texto foi escrito num momento peculiar de 2003, que foi um ano particularmente difícil. Pode-se considerar como os primeiros raios de luz que um soterrado consegue enxergar quando começa a sair de baixo dos escombros da avalanche.

Adhemar, 27/03/2008

Projeto de um prédio industrial e escritórios, feito entre o final de 2003 e meados de 2004. A obra (pela Construtora Tramil) foi executada de set/2004 até fev/2005, no bairro Cooperativa, em São Bernardo do Campo. Ficou linda, adicionaremos fotos da obra pronta.

criado por adhbrgsz    13:04 — Arquivado em: Arquitetura, Prosa

Passagem

"Os dias vão passando assim, com esses ‘ésses’; desfilam céleres, o sol nasce e se põe ensinando-nos a finitude cíclica das coisas, do inconsistente e do indócil."

"Vagam as nuvens confusas, chover onde? Tapam o sol como peneiras por onde os grãos do tempo se escolhem, se graduam. Vagam as palavras, comunicação cada vez mais difícil entre os seres, que até Deus pode estar achando de revisar a sua obra."

"Cacos do pensamento espatifado se espalham, esse é o novo rumo, a nova era… Na idade das razões desconhecidas, do esquecimento voluntário, das obrigações de autor inédito, todos os dias a reciclar seu lixo, suas entranhas e orações…"

"Sempre um faz por onde, um como, um quando! Sempre uma atitude, uma bandeira, um faz-de-conta; sempre uma tontura, um labirinto, um escabelo; sempre um trem lotado, descarrilhando…"

"E o tempo lava, seca e vai passando!"

[Adhemar - S. Paulo, 16/10/2003]

criado por adhbrgsz    12:06 — Arquivado em: Poesia
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