Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

30/4/08

Atraso

"Tardiamente acordou pra vida. Percebeu a maré alta quando a água já batia na bunda; desajeitadamente, atirou-se e começou a mover braços e pernas para sobreviver, ocupar o próprio espaço. Pateticamente, percebeu que estava no raso, os joelhos batendo na areia… Ao rir, engoliu água."

"Caminhou, com as ondas pelos tornozelos, pensando fortalecer as pernas e dando aos pés a infinita delícia do ir e vir dessa água amiga, tão íntima e tão misteriosa. Sentou-se diante do pôr-do-sol molhando-se na areia encharcada e movediça; sai siri! Mas o ocaso o comoveu."

"Dormiu ao vento brando sob o manto azul marinho de um estrelado céu. Nem areia, nem mosquitos; só o infinito firmamento por limite aos sonhos, devaneios e amores do descabelado penitente. Somente a imensidão do futuro e a proteção de Deus. E cantou na solidão desse único momento, ponteando a existência e tentando finalmente ser alguém com algum significado perante o universo. Abençoado pretensioso que nasceu de novo!"

"E riu de júbilo, ou de bobo. Acordou novamente sob o avermelhado sol da manhã ainda meio por detrás da linha do horizonte. Levantou-se brincando com a maré e seguro do caminho a seguir. Embora - até que enfim - sem correr, sem desespero. A criança virou homem; sai siri!"

[Adhemar - S. Paulo, 16/12/2004]

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29/4/08

Desarmamento

          "A respeito do plebiscito sobre o assunto, resolvi agir em causa própria, pensar e definir a favor dos meus ideais. Pode parecer egocêntrico, mas é prático. Vou votar no SIM, a favor da proibição do comércio de armas - logo eu, que sou contra que se proíba qualquer coisa! Mas é um falso dilema, como pude constatar pelo tempo em que fiquei pensando nos prós e contras. Não importa o que pode estar por trás da campanha - desde interesses eventualmente escusos ou o descrédito geral na diminuição da violência - eu sou contra a FABRICAÇÃO, O PORTE E O USO DE ARMAS,  desde armas de fogo até as armas brancas, qualquer tipo de arma. Acho os seres humanos suficientemente criativos para se agredirem com paus, pedras e as próprias mãos; e, mais do que isso, para descobrir motivos de sobra para não agredir ninguém."

          "Não comercializar as armas pode não ser o correto, o necessário e nem sequer o verdadeiro caminho para diminuir a violência. Mas já é um começo. Creio, firmemente, que o ideal de cada ser humano - particularmente o dos brasileiros - seja tão forte que pode transformar as coisas (desde que exercido conscientemente). Chega de ser tangido: apresentou-se uma questão, opinemos de acordo com a nossa vontade e visão de futuro. Se a sua for garantir um direito - ainda que meio besta - do cidadão ter uma arma, vote NÃO. Eu não estou isento de sofrer um assalto ou outra manifestação de violência qualquer. Mas nunca saberia me defender com uma arma. Rezo a Deus para que nunca passe por uma situação assim. Se tiver que passar, que minhas palavras sejam capazes de me defender; que o amor que eu possa irradiar afaste e impeça a ameaça. E se isso não bastar, que aqueles que me conhecem possam perdoar o agressor. Deixei de chamar esse pensamento de UTOPIA, pois nele tenho uma imensa FÉ. E, gradativamente, tenho deixado de agir contra a minha fé."

          "Gostaria que cada pessoa pudesse estender a sua própria fé - seja religiosa, futebolística, política ou científica - para todas as sua crenças cotidianas. Professar a sua honestidade mesmo em meio a tanta falsidade. Não transigir em princípios mesmo em meio à iniquidade. Nunca se envergonhar de sua sinceridade e nem se esconder, mesmo que o meio lhe seja hostil."

          "Àqueles que acharem ridículas ou românticas estas posturas, peço que descerrem suas defesas e compartilhem seus ideais vivendo de acordo com eles, e não guardando-os preciosamente para si. E que perdoem os seus inimigos, procurando as mais antigas razões da indesejável inimizade. E ninguém irá precisar de uma arma, nem como um símbolo das nossas piores tolices."

[Adhemar - S. Paulo, 11/10/2005]

Tiroteio

Escrito às vésperas do plebiscito e enviado por e-mail aos meus familiares e amigos, e a alguns jornais e revistas de grande circulação (ao que eu saiba, nenhum publicou). Havia uma intensa e cansativa discussão a respeito e o texto foi escrito principalmente para os que me espinafravam em razão de ser a favor do SIM.

Adhemar, 29/04/2008.

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28/4/08

Encontro

Perdoe a boca amarga, os olhos vermelhos, o ar distante.

Perdoe o beijo roubado, o coração calado, a indiferença constante.

Perdoe as contradições, a retaguarda exposta e as trincheiras cavadas.

As batalhas travadas, perdoe, bem como a fuga, a presença e a fome.

Perdoe os versos confusos, o pneu furado e a chuva lá fora.

Perdoe a cama desfeita, as malas feitas e o adeus de agora.

[Adhemar - Sto. André, 01/11/2004]

criado por adhbrgsz    12:37 — Arquivado em: Poesia

Equilíbrio

O frio inibe,
   o calor esmorece,
     o excesso atrapalha,
       a falta esquece.

O grande não cabe,
   o pequeno some;
     pouco é migalha,
       muito é desordem.

Vencer é maçante,
   perder é chato.
     Gostar é vibrante,
       detestar é um saco!

A vida é bela,
   a morte é certa,
     certezas confundem,
       dúvidas salvam.

Esquecer é descansar,
   lembrar é sofrer.
     O alienado se arrasta
       mas pensar… é viver!

[Adhemar - Sto André, 01/11/2004]

 

criado por adhbrgsz    12:27 — Arquivado em: Poesia

27/4/08

Campeonato de potoca (1)

(1)

          Vejam o que se deu com um amigo meu: foi convidado para um casamento ao qual ele nem ia; mas sabe como é, não tinha nada pra fazer naquele dia, acabou indo. Caprichou na beca, lustrou os sapatos e colocou gravata - aliás, duas coisas que ele detestava fazer. Pois bem; emprestou um par de abotoaduras do pai dele, alfinete de gravata e o dinheiro do táxi. Chegou tão atrasado que a noiva já estava esperando há mais de hora e meia na porta da igreja quando ele entrou. Tudo bem, deu tchauzinhos aos conhecidos e aos desconhecidos, porque nesses momentos a igreja é terra de ninguém, e todo mundo lá dentro. Mas, espera que espera, deu-se que o noivo não aparecia. Com mais outra hora e meia de noiva na porta e já se desmanchando, alguém conseguiu ligar para o ausente, no celular. E não é que o cara estava a caminho das Bahamas? Pegou as passagens da lua-de-mel e se mandou pra lá com uma tremenda mocréia - pelo menos na recém balbuciada opinião da noiva quando parou de chorar.

          Mas acontece que a família não estava para aguentar o vexame: igreja lotada, festa encomendada, o pai da noiva intimou a moça a escolher uma vítima bem apessoada e, de preferência, solteiro. Vai que a menina, numa rápida olhada… Não é que ela escolheu o meu amigo? E ele ficou tão estatelado de surpresa que não reagiu. A moça não era de se jogar fora, a família era rica… Passaram a lua-de-mel no Guarujá e estão casados até hoje. E ele ainda não conseguiu entender o que outro foi fazer nas Bahamas.

[Adhemar - S. Paulo , 07/03/2003]

criado por adhbrgsz    12:20 — Arquivado em: Brincadeira!

26/4/08

BATE PRONTO

 

Um Atrevimento: pensar que a gente faz a própria cabeça sozinho.

Uma Busca: o motivo de estar aqui, no "planetinha azul".

Uma Coordenada: quando descobrir o que estou buscando, inventar outra coisa!

Uma Dor: o mundo conter tantos males e não saber que fim isso vai ter.

Uma Experiência: tentar ser professor…

Uma Frustração: o que é a felicidade?!

Um Gosto: tipo um capricho? Ser escritor, ora!

Um Homem: podendo apontar só um, então é o meu pai.

Uma Idéia: a implantação da anarquia, no sentido grego da palavra; "sem governo". Acho que todo mundo deveria saber se comportar, fazer a obrigação sem precisar ser fiscalizado. Exagerei? Acho que deveria ter dito isto em "uma Utopia"…

Um Julgamento: ninguém, absolutamente ninguém está no "planetinha azul" a passeio.

Uma Lógica: Deus existe e manifesta continuamente a sua existência. A infelicidade e os horrores perpetrados pelos seres humanos passam por ignorar (ou por não interpretar) os sinais; por exemplo, Jesus foi o maior, o mais claro e o mais óbvio desses sinais.

Uma Mulher: neste item, sem fazer média com a mãe, com a esposa, irmã ou tia; Maria, a mãe de Jesus. É fora de série.

Uma Necessidade: a de ter a família por perto, amigos… A solidão pode até ser legal de vez em quando, mas é assustadora quando você se dá conta.

Uma Opinião: acredito na continuidade da vida após este pedaço que estamos vivendo aqui; em outras palavras, nossa alma é imortal.

Uma Provação: ter que enfrentar, encarar ou frequentar órgãos públicos. Qualquer um, por qualquer motivo.

Uma Questão: pra quê tantas regras? A gente já está aqui mesmo, por quê complicar com normas de comportamento, leis, pecados, tabelas de infrações, nãos, nãos e não?!

Uma Resposta: nada é impossível, só que milagre demora um pouco mais.

Um Sonho: ver cada ser humano funcionando perfeitamente como uma pequena mas precisa engrenagem neste fabuloso mecanismo chamado mundo, ninguém infeliz (xiii, outra utopia aí…).

Uma Tradição: achar que ninguém é culpado até que se prove o contrário.

Um Ultimato: farei o que for preciso para ver os meus três filhos encaminhados. Entenda-se ’encaminhados’ por ‘andando pelas próprias pernas’, trilhando seus próprios caminhos sem depender de ninguém, inclusive deste fã número 1 deles.

Uma Viagem: aquela que vai me levar para outros desafios depois de cumprir as tarefas desta etapa (no "planetinha azul"), se Deus achar que mereço… Ainda estou na fase de ter mais curiosidade do que medo em matéria deste assunto.

Um Xamã: minha mãe…

Uma Zebra: no sentido "lotérico" da palavra? Descobrir que não é nada disso, a vida era só pra se divertir, comer, beber, brincar, dormir…

[Adhemar - Santo André, 25/04/2008]

criado por adhbrgsz    9:22 — Arquivado em: Opinião

Caramba, que difícil!

 

É tempo de tormentas e tempestades.

É tempo de contradições.

É tempo de desafiar heranças, princípios e lições.

É tempo de perder certas imunidades.

É tempo de inescapáveis tentações.

É tempo de se atravessar o deserto.

É tempo de contrariedades e reflexões.

Análises estruturais, costumes e tradições.

É tempo de canalizar os mais profundos desejos.

É tempo de encerrar a segunda fase e assumir novas missões.

[Adhemar - S. Paulo, 26/10/2005]

criado por adhbrgsz    8:14 — Arquivado em: Poesia

25/4/08

Quem

"Ultimamente tenho sido convidado pelos fatos a mudar a mudar de atitude: a ser mais agressivo, intolerante e prepotente. Resultado: tenho agido de modo ultravigilante pra não fazer nada disso. E por quê?"

"Porque aí não seria mais eu. Esse eu tão comodamente estabelecido sobre princípios éticos e morais e que ainda se escandaliza mesmo com as menores torpezas. Porque essa sólida formação baseada em verdade, honestidade e distinção, herdada principalmente dos pais e dos avós, não se dissolve por meia dúzia de desaforos que nos são lançados ao rosto por gente… - como direi? - não qualificada nesses quesitos. Porque, corolário dessa coleção de probidade, sinceridade e lealdade (que seria o dístico da minha bandeira), devo respeito a memória daqueles que me criaram; e devo respeito aos meus descendentes."

"E aqui permaneço - escondido, agarrado, aprumado e altivo - atrás ou sobre essa fortaleza imaterial mas muito eficiente construída por tanta gente importante e à qual me apeguei justamente por ser natural; vi nascer, crescer e se transformar em mim como frondosa árvore de profundas e fortes raízes, de belo tronco, extensos galhos e - quem sabe? - de belos frutos!"

[Adhemar - p/ AJ, ML e VS - S. Paulo, 29/04/2006]

Quem…

A gente passa por fases de profunda revolta contra o mundo e acaba achando que está todo mundo contra. Aí, se lembra que tem contas a prestar (porque a vida é assim mesmo) aos nossos ancestrais e aos nossos filhos. Ainda bem! É o refresco do xilique…

Adhemar, 25/04/2008.

criado por adhbrgsz    21:55 — Arquivado em: Opinião

24/4/08

Linhas Emaranhadas

Era uma vez a linha do horizonte
e uma silhueta bem delineada.
Traços delicados e erguida fronte,
era a silhueta da mulher amada.

Era uma vez a linha ocupada,
ansiedade pela comunicação aflita.
De repente, o toque da mulher amada
e a suavidade da sua voz bendita.

Era uma vez a linha e a compostura
do enamorado da amada criatura
cuja elegância ora foi pro espaço.

Era uma vez a linha e a postura,
lindo o seu sorriso, chegada da aventura;
Sejas tu bem vinda neste terno abraço.
 

VEM LOGO!

Às vezes a gente implica,
complica, faz birra, faz manha;
questiona e se multiplica,
bate e também apanha.

Às vezes a gente exegera;
é fera e fere e arranha.
Quando o outro quer calma exaspera,
quando quer sossego, se assanha!

Aí, um pega e vai embora,
porque precisou, ora, ora!
Trabalho, negócios, Europa!

E a gente, de olhos despertos,
espera, de braços abertos,
a amada da gente de volta!!!

[Para S.M.  - Adhemar - S. Paulo, 22/04/2008]

UFA, ATÉ QUE ENFIM!

Após onze dias ausente, a trabalho, a arquiteta aqui de casa chegou hoje. Aproveitou parte da  viagem para passear um pouco, já que estava lá mesmo, mas pra nossa alegria, está de volta. Bem vinda!

Adhemar, 24/04/2008.

criado por adhbrgsz    14:28 — Arquivado em: Poesia

23/4/08

Reciprocidade

"Quando a situação parecer ambígua, houver duas hipóteses possíveis aparentemente antagônicas, escreva bem devagar. É para dar tempo de pensar entre duas palavras ou, a cada letra, para que a frase se desenvolva coerente e conclusiva. O próprio papel refletirá o caminho a seguir. Cada traço, cada curva de cada caractere escrito dará uma pista para que o assunto se descubra, se revele e se fixe."

"Após o período introdutório - normalmente o mais difícil - o assunto segue seu curso sem dar margem a respostas para eventuais indagações. Esse segundo trecho cria uma espécie de fixação pelo tema, apresentando mais desafios do que soluções. Outras dúvidas surgirão para múltiplas respostas possíveis. Aí é que o texto ganha corpo, vida e independência. Porque a gente perde o controle e não pode mais alinhar palavras a esmo, sob pena de estragar o início promissor. Nesse ponto é que o recheio do texto precisa introduzir uma expectativa no leitor. Na continuidade desse desenvolvimento, a expectativa deve se tornar uma verdadeira ansiedade, quase que um pequeno terror. O leitor deve se perguntar: - Onde é que isto vai dar?!"

"Para finalizar, com o leitor quase em transe, o escrito deve iniciar o desenlace, o ‘gran finale’ sem, no entanto, se deixar adivinhar ou perceber. É outra das partes difíceis, normalmente cada um tem um método peculiar de encarar esse momento, sem contar a ansiedade do próprio autor. E cada sílaba deve ser pronunciada a meia-voz, cada passo deve ser medido e calculado para o enorme sorriso de satisfação do cliente ou para a queima do livro…"

[Adhemar - S. Paulo, 21/05/2006]

Diz aí…

Chegou até aqui? Então? Funcionou?!

Adhemar, 23/04/2008.

criado por adhbrgsz    12:38 — Arquivado em: Prosa
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