Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

30/6/08

Intersecção

 

Um exercício de retórica:
fachada de austeridade e força.
Apesar das aparências
mas visível além da dor,
existe um ponto fraco;
não revelado mas revelador.

O prumo, a pose, o porte.
Nada mais importa
se o espírito está quebrado.
Mas há no mundo dor maior -
não que console ou resolva;
apenas demonstra que há conserto
para o que está diante
do que vai errado.
Atravessando o tempo,
atravessando o espaço:
mudo e declarado!

[Adhemar - São Caetano do Sul, 18/05/2005]

criado por adhbrgsz    12:23 — Arquivado em: Poesia

29/6/08

Duelo noturno

Uma noite, na penumbra,
caminhando solitário
de repente vislumbra
uma torre, um campanário.

De tal visão inda se lembra
que nunca mais a esqueceu.
Ao pé dela uma contenda
que tanto sangue verteu.

Dois campeões encapuçados
ao pé de uma janela
duelavam, encarniçados,
ambos por uma bela.

Cruzam os ferros, terríveis,
quando um terceiro aparece.
Desafia os dois destemíveis
e a cada um diz que vence.

E tal duelo recomeça,
com os três se espicaçando.
O triste final se apressa
mas um quarto vai chegando.

É o que tem prioridade
- é o que aos outros vai dizendo.
Com tão pouca claridade,
os outros três o maldizendo.

E o desafiam também.
Duas duplas se enfrentando.
Por testemunha, ninguém;
só a bela está olhando.

Chega um quinto, o sexto, o sétimo,
todos na briga entrando.
Vão chegando, chega o décimo,
os contendores aumentando.

Ela olha indiferente
a tão singular combate.
Por ela briga tanta gente,
tanta gente que se bate.

É tão sonolenta a donzela,
que apaga sua candeia.
E sai devagar da janela
a rameira da aldeia…

[Adhemar - março/1983]

Duelo!

Outra bobagem escrita à época sob pseudônimo, numa série de cartas que trocava com um amigo. Qualquer hora apresento as barbaridades que ele escrevia de volta…

 
Adhemar, 29/06/2008.
criado por adhbrgsz    13:35 — Arquivado em: Brincadeira!, Poesia

28/6/08

Abertura

          Mais um volume a ser preenchido de metáforas. Mais um espaço para depósito de anseios como um ventre e seu feto. Tanta expectativa e potencial colocados ali, humanamente.

          Outro registro de idéias e projetos baseados em sonhos, em ideais e em princípios autênticos; e também algumas invenções, histórias apócrifas, para não dizer mentiras quase verdadeiras.

          Detalhes, sutilezas, observações; todos costurados por por uma linha intensa de imaginação e angústia. A recobrir o estilo, uma fina camada de ironia e falsa erudição. Como pano de fundo, um cinismo estudado, sem maquiavelismo nem disfarce: só uma certa ousadia revestida de atrevimento.

          Cheio de energia nas veias e gás enchendo o balão, esperar o vento, soltar os contrapesos e voar para o sonho, para as pretensões e às metas inalcançáveis. Contrariar os ditados e julgar, sim, além das aparências; pois quem vê a cara pressupõe o coração.

          Enfim, prestar o próprio depoimento sem desfavor da verdade. Contar ao mundo como é ser - nos dias de hoje - um visionário, sonhador e romântico.

[Adhemar - S. Paulo, 14/07/2005]

Continuação

Só para exemplificar, um primeiro escrito num caderno de rascunho novo, para contrapor o "post" anterior (apesar que este caderno não é o sucessor daquele lá).

Adhemar, 28/06/2008.

criado por adhbrgsz    12:40 — Arquivado em: Prosa

Linha e ponto

          Vai chegando ao fim mais um período. Traduzindo: no caderno de rascunho restam poucas folhas. Toda vez que um caderno acaba, abre-se um novo. Toda vez que abre-se um novo, mudam os temas. Não é proposital; mas o subconsciente talvez procure algo mais digno para ser registrado. As mãos se esforçam para melhorar a caligrafia, tão castigada no final do caderno anterior. A mente procura novas formas de dizer as coisas, novos sentidos, novos assuntos.

          O próprio novo caderno, indagador em suas brancas folhas, parece esperar ansioso o que vai carregar. Ansioso e severo, posto que deve ter absorvido atentamente as queixas do caderno mais velho.

          Outrossim, quando acaba a tinta da caneta, uma nova ordem se impõe. O próprio texto, interrompido e truncado com suas letras esmaecidas, assume um novo sentido - uma nova cor, por assim dizer - partindo do trecho mal escrito e quase transparente que o antecedeu.

          Nessa caminhada difícil e complicada da falta de folhas ou de tinta, a sublime inspiração se evapora, incorpora-se no ar e some no vento. Ficam as palavras órfãs de compromisso, significado e entendimento.

[Adhemar, Sâo Paulo, 31/07/2004]

Epílogo…

Toda vez que vai acabar um caderno de rascunho, surge um texto deste tipo; e esse caderno referido no início, nem estava tão no final assim. E não é que acabou mesmo a tinta da caneta? Se "a ocasião faz o ladrão" não há dúvida que de oportunidade e observação vivem os textos, isto é, os escritores…

Adhemar, 28/06/2008.

criado por adhbrgsz    12:16 — Arquivado em: Prosa

27/6/08

Pressões

 

Beleza tímida - ilusão de ótica;
passarela elevada,
desfile imaginário,
é uma moda exótica.

Mas não há promessa
e não há história.
Fugaz e passageiro
é um momento único.

E ser falso ou cínico
é só outra ilusão.
Verdadeiro ou certo?
Máscara ou plástica?

Tantas indagações
e tão sem resposta.
Seguir, distanciar,
viver além da aposta.

Indicar novos caminhos,
outros meios, dizer sim
antes da hora.
Cantar como nunca, agora.

Pensamento espalhado,
beleza tímida e descalça;
olhar perdido, inebriado,
o horizonte, o azul, a graça, a valsa…

[Adhemar - S. Caetano do Sul, 17/05/05]

Força de expressão

Até agora não entendi porque chamei de "pressões"…

Adhemar, 27/06/2008.

criado por adhbrgsz    12:37 — Arquivado em: Poesia

26/6/08

Indagação

 

Às vezes surge uma pergunta
que se julga irrespondível.
Vem altiva, presunçosa e prepotente
e totalmente irresponsável.
Chega do nada, envaidecida e desvairada
como se única;
essa pergunta, irriquieta e assanhada
surpreende, provoca e arrebata,
causa espanto, causa pasmo e atrapalha
de tão sem nexo e de tão descabelada.

Essa pergunta caída de repente,
malevolente e mal intencionada
só quer por fogo em nossa vida atribulada.
Essa pergunta atrevida
apesar de tão dissimulada
é uma prensa que nos joga na parede
e nos obriga a repensar a própria vida.

Essa pergunta tão fatal e malfadada
vem de dentro,
rasga o cérebro e a razão abençoada;
rasga a alma já tão cheia de serviço,
semi-desesperada.
Essa pergunta que não cala,
não se aquieta e quer resposta.

Essa pergunta sempre sobe de repente
sem contexto e sem escala.

Quem sou eu?!

[Adhemar, 01/06/2007]

"That is the question!"

Essa pergunta tem uma co-irmã - "o que eu estou fazendo aqui?!". Nem sempre andam juntas, graças a Deus! Mas a resposta para ambas é o modo como vivemos a nossa vida. Eu acho…

Adhemar, 26/06/2008.

criado por adhbrgsz    9:26 — Arquivado em: Poesia

25/6/08

Que situação!

 

Na repetição cotidiana dos fatos,
nas janelas fechadas,
nos olhos abertos;
nas paisagens atrás dos retratos,
nas figuras bem cuidadas,
nas crenças e nos incertos…

Nos sons do dia desperto,
na balada dos aflitos,
no vale dos desesperados;
no que o errado tem de certo,
nas convergências e nos conflitos,
na imprudência e nos cuidados…

Na dor, no amor e desejos,
nos gritos, nos ritos e planos,
no trabalho e na vagabundagem;
nos tapas, afagos e beijos,
nas certezas e nos enganos,
no medo e na coragem…

No simples e no complicado,
na maldade e na benevolência,
na alma, no espírito e corpo;
no chão e no telhado,
na calma e na violência,
no vendaval ou no sopro:

Somos apenas humanos.
Somos apenas pessoas.
Somos apenas gente.

[Adhemar - São Paulo, 18/11/2005]

Situação…

Ao transcrever esses versos, resisti à tentação de acrescentar mais um, no final: "nem sempre"… Deixa pra lá…

Adhemar, 25/06/2008.

criado por adhbrgsz    12:49 — Arquivado em: Poesia

24/6/08

“Devagarção”

 

Ponto com, ponto BR.
Uma hora vende três,
o salvador usado.
Passa o cacique,
passa o táxi lotado.

Um animal, um mineral,
um vegetal perfumado.
Corta, lava e seca - unissex -
ao longo do ponto furtado,
aclimatado ao natural.

Avaliações, competição.
Seguir o manual abandonado.
Olhar profundo, olhar pra trás,
visão com fundo desenhado
enveredando pelo aviso antecipado.

Refazer dos peixes o trajeto
e não se ter afogado;
muito pouco olhar pra frente
e salvar o objeto:
como o tempo passou rápido!

[Adhemar - São Caetano do Sul, 18/08/05]

criado por adhbrgsz    17:35 — Arquivado em: Poesia

23/6/08

Família

 

Deus, generoso comigo, proporcionou-me alegrias:
esposa amorosa e dedicada,
três filhos lindos,
educados e inteligentes.

Deus, o melhor dos meus melhores amigos,
atribuiu-me tarefas macias:
responsabilidade firme e adocicada,
um tempo infindo,
raciocínios presentes.

No dia-a-dia me intrigo
com o desenvolvimento das crias,
infância pura e atirada,
sempre crescendo alegres e sorridentes.

Vamos seguindo unidos,
rezando, lutando e brincando todos os dias.
Relações de amizade aprofundada,
fortalecendo nossos laços ternos pra sempre.

[Adhemar - 01/06/2000]

Meus três amigos lá de casa.

Adhemar, 23/06/2008.

criado por adhbrgsz    12:49 — Arquivado em: Imagem, Opinião, Poesia

22/6/08

Campeonato de potoca (6)

VISÃO

               Em um longínquo lugar, onde a neve cobre as montanhas, um pequenino pastor conduz seu rebanho para o campo, acompanhado pela aurora. Despreocupado, segue seu caminho quando, subitamente, muda-se o céu. Nuvens negras "ensombrecem" o rebanho. O pastorzinho já ia reuni-lo para o reconduzir ao curral, mas um vão se abre nas nuvens e uma luz intensa desce sobre ele.

- "É o Senhor que te chama", diz uma voz, suavemente. "Ouça-o".

                O pastorzinho, quieto. Esperava ansioso para ouvir o que Deus tinha de tão importante para dizer que ia fazê-lo pessoalmente a um pequeno pastor. E ouviu:

- "ESTÁS VENDO AQUELAS MONTANHAS?"

- "Sim", disse o pastorzinho.

- "VAI ATÉ A MAIS ALTA DELAS, QUE É A MAIS DISTANTE, ESCALA-A SOZINHO MAS DEIXA TEU REBANHO AO PÉ DELA. CRAVA TEU CAJADO EM SEU PICO; NÃO IMPORTAM AS DIFICULDADES DO CAMINHO NEM O TEMPO QUE LEVARES PARA A CHEGADA. CRAVA E PRONTO! ESTARÁ CUMPRIDA TUA MISSÃO SAGRADA COMO SER HUMANO."

               O pastorzinho nem discutiu. Após as divinas palavras, pôs-se a caminho. Levou anos para chegar lá. Ovelhas morreram, ovelhas nasceram e as dificuldades haviam sido muitas. Mas ele chegara na montanha indicada.

                Diante dela, ele se desesperou. Ela era tão grande, tão íngreme… Pensou no rebanho, em tudo, no entanto sua fé foi maior e resolveu acatar as Sagradas Instruções. Deixou o rebanho acomodado ao pé da montanha e começou a subir.

                Levou outros muitos anos para chegar ao cimo. Mas… Chegou. Pensou nas ovelhas - que já deviam ter pego traças na lã! Mas enfim, lembrou-se das palavras do Senhor e cravou seu cajado (que já estava no toquinho, gastou com o tempo) e perguntou, coçando a cabeça já grisalha:

- "E agora, Senhor?"

- "PÕE MAIS PRA LÁ, MEU FILHO", disse o Senhor, "POIS O CRAVASTE EM MEU PÉ!"

[Adhemar - abril/1983]

Vislumbre!

Gente, achei minhas pastas com escritos anteriores a 1986! (Quanto pó!) Esta tolice foi escrita sob um pseudônimo numa seqüência de cartas trocadas com um amigo (aquele da "briga" postada em 20/04/08). Qualquer hora conto a história dos dois (do meu amigo e do meu personagem que emprestou o pseudônimo).

Adhemar, 22/06/2008.

criado por adhbrgsz    8:42 — Arquivado em: Brincadeira!
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