Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

31/8/08

Campeonato de potoca (11)

O PEQUENO CONTO DO MACACO

Era uma vez um zoólogo praticante que criava animais procurando reproduzir em seu quintal os ambientes naturais de cada um, para poder estudá-los melhor.

Um belo dia, nosso zoólogo ganhou um macaco. Um bicho esperto que logo lhe conquistou a amizade, despertando-lhe uma grande simpatia que nunca chegou a sentir por nenhum dos outros animais.

Passados os anos, o bicho havia-lhe mudado completamente a maneira de ser. Vivera até então praticamente em função desse macaco que se mostrava muito observador e atrevido. Descuidava dos outros animais mas o macaco lhe corrigia tratando-os como se fosse seu próprio dono e o colocava na linha!

Depois de muito tempo de convivência e mútua admiração, os dois já meio velhos, houve o dia em que o zoólogo morreu de um súbito colapso cardíaco. Percebendo o que  tinha acontecido com o amigo, o macaco não se deu por achado: incinerou-o e guardou suas cinzas como o tinha visto fazer em vida com inúmeros animais. E melancolicamente pôs-se a fumar, olhando nostalgicamente pela janela, pensando se não devia escrever um livro.

E assim termina a história do macaco que estudou o homem.

[Adhemar - São Paulo, abril/1981]

criado por adhbrgsz    9:51 — Arquivado em: Brincadeira!, Prosa

30/8/08

Aí está!

Um pequeno sorriso.
Um mini gesto gentil.
Um oi aqui, outro acolá.
Até que enfim, um olá!

Um pequeno olhar, um café.
Uma estendida mão, uma carona,
um caminhar a pé;
muito fervor, muita oração, muita fé.

Um pequeno gesto gentil,
um mini-sorriso.
Um olhar para o chão,
um até.

Uma calorosa saudação;
uma tímida - mas generosa - divisão.
Um "o que é que há", um abraço,
um triste retrato,
uma alegre recordação.

Um pequeno momento,
uma grande distração.
Uma suposta ternura,
uma certeza de amor
ou, de repente, uma paixão.

[Adhemar - Santo André, 21/08/2008]
criado por adhbrgsz    19:09 — Arquivado em: Poesia

28/8/08

ATALHOS

Depois de muito caminhar por sendas difíceis e tortuosas;
depois de muito se perder em conflitos e desvios;
depos de tantos esforços, rodeios e sacrifícios;
depois da vivência escolada em situações embaraçosas;
chegar e não encontrar nada.

O choque, a decepção, o vazio.
Lágrimas nos olhos, a cair, por um fio.
A devastadora sensação da derrocada.

Chegar a uma terra arrasada.
Um nada de ninguém, totalmente destruído.
Um sonho, um ideal desconstruído
na idéia tão brilhante - desgraçada.

Cair ajoelhado, impotente e desolado.
Olhar o céu sem cobrar explicação.
Olhar pra dentro de si mesmo, ao coração,
e levantar-se inconsolável conformado.

Ver surgir outro ideal mentirosamente cintilante
e se entregar à ilusão do esquecimento;
partir aplacando o velho ressentimento
vendo a estrada a seguir, lá no horizonte.

Visualizar o novo alvo tão brilhante
sem perceber que pra chegar são outros tantos
caminhos tortuosos com desvios e espantos;
e já de olhos sêcos, seguir contente.

Outros conflitos, muitos esforços hão de vir.
Até um novo choque, decepção e outro vazio.
Mais um trauma, mais um baque tão difícil.
E mais lágrimas, muitas lágrimas por cair.

E mais uma luz vai surgir, mais outra meta.
a alegria de seguir, felicidade.
O colapso ao chegar, dificuldade!
É sempre assim essa vida de poeta!

[Adhemar - Sto. André, 31/07/2008]

criado por adhbrgsz    2:35 — Arquivado em: Poesia

27/8/08

AZUL

Azul de um pálido parado,
indeciso e delicado.
Azul altivo e nivelado,
espectador mascarado.

Mascarado em sua dor intensa
como quem chorou e ora pensa.
Azul como a prateleira escura da despensa;
azul de um jogue, arrisque e vença.

Azul braços cruzados na espera.
Azul na ante-sala e na esfera.
Azul de olhos fechados na entrega.
Azul lábios cerrados, nunca chega.

Madrugada azul, braços abertos.
Olhos claros, azuis, espertos;
nos epelhos-labirintos, longes-pertos.
Azul cambaleante, passos incertos.

Azul de claridade tão sincera,
de concentração preta, cinzenta.
Azul que não se inventa em verde plano,
azul quebrado ao meio, faixa amarela.

Azul estudioso, compenetrado.
Azul castanho escuro, avermelhado.
Azul orgulho, azul simplificado.
Azul dois menos um e o resultado.

E o resultado é azul, simples assim,
como o estudante desbotado, enfim,
como o tudo e como o nada, o não e o sim,
como o verso azul que chega ao fim.

[Adhemar - São Paulo, 03/12/2003]

criado por adhbrgsz    9:13 — Arquivado em: Poesia

26/8/08

Linha 2

 

Tudo é uma questão
de organização.
Paz e tempo,
acomodados para uma perfeita harmonia
de pensamento.

Olhar, atentamente,
para todas as possibilidades.
Esticar os braços e as mãos
para espreguiçar.
E de olhos então fechados,
sentir o corpo todo estalar.

Papéis e lápis à mão;
uma nova saga de poesia e bobagem
está para começar.

[Adhemar - S. Paulo, 20/12/2007]

Traço 2

Invocação para um trabalho legal! Quem trabalha se divertindo está brincando de trabalhar?

Adhemar, 26/08/2008.

criado por adhbrgsz    13:22 — Arquivado em: Poesia

Linha

 

Divisão.
De qualquer dos lados pode surgir um perdedor.
Atitudes indistintas entre salvas e retaliações.
Muitas dúvidas, boas notícias;
atitude.

Diligência.
Qualquer dos caminhos pode aprontar surpresas.
Decisões secundadas por bençãos e avaliações.
Muitas novidades:
poucas decepções.

Transformação.
Qualquer mágica a serviço da felicidade.
Truques primários, política e concentração.
Muitas maldições, trabalho bem sucedido,
inveja e cumplicidade.

Impaciência, realização, resultado.

[Adhemar - Sto. André, 14/11/2006]

Traço

Alinhamento ou desabafo sobre as contradições no trabalho. Como diz o próverbio (de araque) chinês: "nunca ficou plovado que o tlabalho matou alguém; mas pol que aliscar, não é mesmo?"

Adhemar, 26/08/2008

criado por adhbrgsz    13:11 — Arquivado em: Poesia

24/8/08

Campeonato de potoca (10)

NÓS, FORMIGAS

"Oi, gente! vim aqui gravar este depoimento, pois todo mundo pensa que nossa vida é uma fabulazinha aí. Desculpem esse jeito meio despachado de falar mas, como outras colegas, estou de saco meio cheio dessas histórias da carochinha, do Esopo, do La Fontaine e sei lá mais quem. Porque ‘fulano é uma formiguinha pra trabalhar’… Somos citadas como exemplo; porém, virou e mexeu tão jogando formicida na gente, pisando na gente, atrapalhando nosso caminho e desmanchando o formigueiro! Ora essa! Hipocrisia tem hora! Ademais, não somos tão fanáticas pelo trabalho, assim como vocês pensam, isso é ignorância dos seres humanos. A gente faz o suficiente pra sobreviver, com inteligência e cooperação. Nosso segredo é ser… Aos milhões! Milhões e milhões de formigas em cada formigueiro. Fossem vocês mais atentos e iriam reparar que, sumiu um montão de nós, outro tanto aparece. Trabalhamos por turnos e, sendo tão parecidas umas com as outras, damos impressão de um trabalho contínuo, incessante e incansável. Pura contra-informação! Também temos nossas colonias de férias, apart-hotéis, disneylândia e ‘otras cositas mas’. Somos sim, persistentes, inteligentes, tenazes e obstinadas; objetivos traçados são para serem atingidos. Somos socialistas no sentido mais puro da palavra, todas trabalham por todas. Agora me dão licença, que minha folga acabou."

[Adhemar - São Paulo, 25/04/2001]

ELAS, FORMIGAS

Meu irmão biólogo costuma dizer que, em São Paulo, só há dois tipos de casas: as que têm formigas e as que ainda vão ter. A minha situa-se na primeira categoria. Como na infância, gosto de observá-las ir e vir pelos diferentes cômodos da casa, entrar e sair pelos buracos das paredes (nesse quesito, minha casa se assemelha a uma tapera - casa de arquiteto, espeto de pau…). Convivemos pacificamente até um determinado ponto, porquê, exceto por baratas, ratos e mosquitos, sou daqueles que evita matar qualquer coisa viva a qualquer custo. Porém, confesso que, ultimamente, a situação ficou grave porque elas estavam praticamente nos despejando de casa, então, fui obrigado a apelar: estamos em guerra aberta e declarada (por isso descobri que não eram as mesmas que voltavam, eram outras!). Com grande vergonha, reconheço que estou utilizando artifícios torpes, armadilhas covardes e agredindo-as pelas costas, com pisões, pancadas à feixe de jornal, formicidas injetados nos desvãos, tamponando fendas com sabão. Apesar de saber que a natureza sempre vence, minha ofensiva estabeleceu certa vantagem sobre elas.

Em tempo: quando escrevi o texto "Nós, formigas", morava em outra casa, situada em frente à praça Mario Autuori. Só pra constar, esse Sr. era um biólogo especializado em estudar… formigas!

Adhemar, 24/08/2008.

criado por adhbrgsz    11:54 — Arquivado em: Brincadeira!, Prosa

23/8/08

Vínculo

Vim ao que me perturba,
ao mistério, à dor, à dúvida.
Mais do que altiva soberba,
a paga na mesma moeda.

Me estabeleci no vazio.
Corpo ôco, opaco, desocupado.
Mais que rápido, ágil,
como a certeira flecha de Cupido.

Sentei-me no parapeito do abismo
como se alado fosse; e voar, uma saída.
Mais do que o acaso, à esmo,
fosse o fracasso de uma história mal contada.

Defrontei-me com o espelho - face a face -
de encontro a um simpático estranho.
Mais do que desperto, de repente,
saindo suado de um esquisito sonho.

[Adhemar - S. Paulo, 06/05/2005]

criado por adhbrgsz    8:04 — Arquivado em: Poesia

22/8/08

Meios dias

 

Se de todas as maneiras,
se cada forma nova;
ou se de repente ou sutilmente
ou quase sempre e sempre quase;
se na ansiedade
ou na mais tranqüila espera;
nos cantos, nos recantos,
onde quer que se esteja;
se na cotidiana rotina
ou na ausência do cadenciado dia-a-dia;
nas dúvidas, nas certezas
ou nos meios-termos;
se nos resumos e nas sínteses
ou se em simplesmente tudo,
mesmo quando nada possa perturbar:
é a imagem fixa que acompanha a mente.

Que imagem e qual mente?

É o segredo encerrado nas palavras
ora públicas,
que se enterra e agoniza
nesta boca de papel…

[Adhemar - São Paulo, 09/03/1988]
P/ BSF

criado por adhbrgsz    14:05 — Arquivado em: Poesia

21/8/08

Na calada da noite

 

Estou aqui te escrevendo uns versos
e ouvindo um cão vadio revirar a lata de lixo.
Outro ladra mais além.

Dentro do peito, um vago temor vazio
revira a lata de lixo dos meus sentimentos.
Na cabeça, a dor da procura.
No fundo da noite, passa um trem.

Seu ruído vem dentro de mim.
Mais acima esqueço um acento.
Há uma lâmpada que não se apaga
e, enquanto estiver acesa não irei dormir.

Confuso, já não sinto a lâmpada acesa;
contudo, é tua ausência que não me deixa dormir.
Deve haver lua, sem você, não vou ver.
É coisa que se conclua, devido ao uivo dos cães,
mas por minha tristeza também.

A folha vai acabando mas… Meu Deus!
Quanta coisa ainda gostaria de dizer.
Dizer direto em teus ouvidos,
num abraço, sei lá eu.

Quando paro de escrever, começo a sonhar.
Sonhando posso te ver, te abraçar…

O cão se foi, a lâmpada se apagou.
Mas há outros ruídos indistintos,
alguém, por aí, se mexeu.
Aqui paro, mais uma vez pensando em ti.

[Adhemar - São Paulo, fevereiro/1982]
p/ MG

criado por adhbrgsz    13:08 — Arquivado em: Poesia
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