Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

30/9/08

Premissas

As flores são coloridas, o céu é azul - porque estou afirmando…

Por que não gosto de esgotar o tempo em buscas inúteis? Há sempre a possibilidade de urgências mais sofisticadas a respeito do que fazer.

Há tempo, pouco tempo para o que seja realmente efetivo e importante.

As restrições sempre nos conduzirão a um estado de tensão permanente. Assim, enquanto o tempo escorre lento - mas implacável - uma súbita aflição pelo que não fizemos nos invade; daí certas urgências nos satisfazerem enquanto as atendemos e o tempo dispendido no inútil ou no desinteressante nos irrita ou nos decepciona.

Enfim: como não dizia o poeta, viver é preciso e, navegar também!

[Adhemar - São Paulo, 15/07/1996]

criado por adhbrgsz    19:03 — Arquivado em: Prosa

29/9/08

“Desequidistância”

 

Já não posso contemplar teus olhos negros
nem posso pousar meu corpo em ti.
Tua presença me desequilibra, mesmo,
ainda assim eu te queria aqui.

Já não posso contemplar o teu semblante
sem que o desejo de abraçar-te me assalte.
O desequilíbrio de afastar-te é enervante
e meus gestos pedem que tu volte.

Tua presença suportar não posso
pois a dor de não te amar é alta;
e indagado em meu íntimo sentido esboço
o meu coração que a própria voz não solta.

Resta o consolo a balançar no peito
rolando o corpo em meu ardente leito;
o que nos separa assim tão de mau jeito
é amizade, afeto e respeito!

P/ CDG
[Adhemar - São Paulo, 01/01/1986]

Muita distância…

Segundo texto escrito para uma amiga da época que se declarou - com a maior clareza possível - apaixonada por este atrapalhado poeta. Este, por sua vez, estava envolvido com outra mulher e, com a maior delicadeza possível exercitou o que uns amigos de hoje chamam de "bom mocismo cafona". Não dei a ela nehuma falsa esperança e nenhuma das poesias que pra ela escrevi (e que ela nem sabe que existem). Fico, portanto, no meio-termo entre o cavalheiro de quase sempre e o cafajeste do "post" de ontem.

Adhemar, 29/09/2008.

criado por adhbrgsz    17:41 — Arquivado em: Poesia

28/9/08

Campeonato de potoca (15)

FESTA CENSURADA…

Qual não foi a hemorróida que não tive
depois de um funesto rega-bofe;
cheio de piriris, canapés e acepipes
que descreverei nestas estrofes.

Tudo quanto queiras teve a festa,
nada mais porém do que o impasse
surgido após que esta besta
ficou esperando o desenlace.

Chego cedo à festa, após curto trajeto.
O ônibus vazio até veio depressa.
Smoking, gravata borboleta - chique à beça -
Há quanto tempo a esta roupa eu desinfeto!

Na porta, mal acredito, está meu nome
entre o de quinhentos e tantos granfinados
(não é no céu a festa, e ai, que fome!).
Eu lá, entre tantos quinhentos convidados.

Todo feliz, vou em frente pro salão.
Logo de cara um garçom vem me abordar:
- Cavalheiro, o que deseja pra tomar?
- Um "giardino" por favor, e sem limão.

(Foi a dica de um amigo que segui;
- peça um "giardino" com toda a pose granfa!)
Veio o "giardino", sei lá eu que alquimança,
fui bebendo e olhando tudo quanto vi.

E o primeiro desastre veio logo:
o tal, que não sei eu de que compêndio,
"giardino" era forte e feito incêndio
desceu qual um vulcão que cospe fogo!

Passado o susto, do qual ninguém se apercebeu,
encontro conhecidos à distância.
Tchauzinhos discretos, fora instâncias,
vejo u’a morena chamar… Eu.

A passo lento - pura dança - chego a ela
conversando sobre todos os assuntos;
desde queijos ralados até presuntos,
descubro que ela gosta de costela.

Vai daí que a moça tem fino apetite,
digo, daí vai que ela tem bom paladar.
Eu disse a ela que gostava de pescar
e pra comer preferia sanduíche.

E, conversando, chega a hora do jantar.
Suculentos pratos vêm à mesa,
finamente servem-se os antepastos.
Eu ao lado dela fui sentar…
Não percebi que diversa natureza
não nos compatibilizava em matéria de repastos.

E mergulhei na sugestão apetitosa,
ainda com dor de garganta - o "giardino"!
Comi aquilo tudo qual menino,
mas bem comportado e mão jeitosa.

Por falar em mão, a perna dela
era tão roliça e tão macia…
Digo, ela disse, porque ela
falava sempre e muito, de alegria.

Mergulhei num "champollion" efervescente,
na moqueca com molhos e aspargos;
uns dos pratos, não sei quais, eram amargos,
outros porém, como a sopa, eram picantes.

No final desse banquete - ah! Meus dias!
Achei que eles estavam já contados…
Da garganta ao intestino tudo ardia;
e os dôces da sobremesa eram melados.

Mexer a minha boca eu mal podia
e ela a falar desembestava!
Tantas piadas sujas que contava,
tanto e tanto mais e tanto ria.

E champagne e vinho e champagne;
e vinho e champagne e vinho e vinho.
Tudo flutuando, eu tão levinho,
pensava: quando for pra casa Deus acompanhe!

Depois, apavorado, uma piscina
onde o povo ia caindo, todos bêbados;
homens de fraque, de cartola e as meninas
de vestido, de mantô e de brocados.

Ela e eu, entretanto, nos salvamos.
Não sei como, nem por quê, mas num momento
ela disse em me levar pro apartamento
dirigindo o carro dela, não enxergando!

E eu pensando "agora estou perdido!
Esta mulher me pega e põe na cama
e eu ‘necas de biterbas na tipama’
e… Ai! Meu tubo interno! Tão ardido…"

Assim pensava eu quando entramos.
E tal como desconfiei, ela sumiu.
Voltou toda séria  e me despiu.
Ordenou que eu me deitasse, sem reclamos.

Aí, ela sentou e, toda eclética
perguntou o que eu sentia, de qual lado.
Expliquei-lhe: "dói-me desde a boca até o rabo!"
E ela examinou-me, era médica!

[Adhemar - São Paulo, 07/05/1984]

criado por adhbrgsz    19:25 — Arquivado em: Brincadeira!, Poesia

27/9/08

Generalidades amenas

De toda poesia que há no mundo
pássaros cantando
plantas florescendo
céu amarelado azulando
gente esperando
gente correndo.

De todo o repertório bem no fundo
gente pensando
amor sorrindo
gestos agradando
plantas florindo
paixões nascendo.

De tudo que em resumo se resume
humanas atitudes
sol se levantando
gente se aquecendo
olhares se apurando
ventos soprando…

De tudo que traduz o que é vida
cabelos esvoaçando
cabelos embranquecendo
gente procurando
gente se perdendo
rostos sorrindo
corações sonhando…

[Adhemar - São Paulo, 02/04 e 05/06/2008]

VIDA DE POETA

De palavras e poesia eu vou vivendo,
enquanto Deus permite vou sonhando;
quem não sonha nem se importa vai morrendo,
pois de "nada" está se alimentando…

[Adhemar - Santo André, 04/04/2008]

Chagas Lourenço

Essa trova foi escrita após ter lido uma poesia do poeta Chagas Lourenço, à época. Chama-se "dia da poesia", escrito em 14/03/04 e postado em 14/03/08, passem por lá (link nos favoritos, aqui ao lado)!

Adhemar, 27/09/2008.
criado por adhbrgsz    8:43 — Arquivado em: Poesia

26/9/08

Ladeira abaixo

 

Pegou embalo, desembestou e desceu.
Hiatos, falhas, fatos esparsos,
momentos tão díspares e dispersos
que imediatamente esqueceu.

Manobras, meneios, versos
que mais ninguém entendeu.
Palavras inúteis, escuro, breu,
momices, micos, mímicas, gestos.

Caminhos, dúvidas e aberturas
discretas, diretas e notáveis;
em curvas e retas derrapagens estáveis
e a brusca busca por aventuras.

Remos quebrados, velas ao vento
deslizando ao sabor da corrente.
Leme direcionado rumo ao poente
venerando o tempo, senhor do tempo.

Bençãos, persignações, abluções; ótimo!
Rezas e orações, saravás, preces.
Freios desregulados, faz e parece
muro crescendo, rápido e próximo.

Sortilégio? Sina? Destino? Dois?
Velocidade acelerada aumentando mais.
Miragens, vertigens e labirintos tais
que o parar como se vê depois.

Estrondo, avalanche, bola de neve
que desce se alimentando do que destrói.
Deixa estático a contemplar, o herói
que não vai, não fica, nem faz o que deve.

De um tímido e pálido castiçal
a chama pertubada se inclina;
mas não apaga e nem desanima
enfrentando, célere, o vendaval.

Estudo, pesquisa, ciência, compêndio.
Tem uma ambição essa pequenina chama
que pouco a pouco se entusiasma e se inflama
para transformar-se, magnífica, num incêndio!

[Adhemar - São Bernardo do Campo, 28/12/2004]

criado por adhbrgsz    13:03 — Arquivado em: Poesia

25/9/08

Aos originais e às cópias

 

Não penso - nem considero -
que passar a limpo seja fácil;
Mas aqui também não quero
fazer poesia portátil.

Dediquei isto a você
e não vou espinafrar;
mas "batata no purê
não se deve estranhar".

Gosto mais do original
(modifico-o ao copiar)
e até me sinto mal
quando tenho de o passar.

O homem é ele mesmo
somente nos originais,
pois quando os reescreve à esmo,
os modifica demais.

Queria ser mais filosófico
e ser, até, mais sincero.
Porém, se demais me estico,
o conteúdo altero.

Vou acabar co’s rascunhos.
Esmerarei nos finais.
Transformarei, por meus punhos,
as cópias em originais.

[Adhemar - S. Paulo, agosto/1981]

Ai…

Não podia ser mais infantil?

Adhemar, 25/09/2008.

criado por adhbrgsz    12:44 — Arquivado em: Poesia

24/9/08

Referências…

 

Caminhar
como caminha o atormentado
Chorar
como escorrem as torrentes
Acreditar
como crêem os crentes
Orar
como quem reza ao lado

Crescer
como aumentam as mentes
Vencer
como quem consagrado
Ver
como enxergam os descrentes
Haver
como existe o desolado

Partir
como se despede o embarcado
Sorrir
como acha graça o condenado
Seguir
com a disposição dos indolentes
Fluir
como o cerne das correntes

Supor
como imagina o estudado
Repor
como à maneira dos valentes
Dispor
como quem diz obrigado
Transpor
como suspiram os doentes

Morar
ao abrigo da amizade
Ferver
no miolo do marasmo
Cair
na candura do covarde
Opor
ao cansaço, entusiasmo…

[Adhemar - São Paulo, 30/12/2000]

criado por adhbrgsz    11:50 — Arquivado em: Prosa

23/9/08

Invasão

 

Como se fosse uma poesia fugaz ela passou
correndo pela minha rua, de vermelho.
Como se fosse uma poesia definitiva ela sorriu
parada bem na minha frente, ante os meus olhos.

Como a mais linda poesia ela finalmente se instalou
bem lá dentro e bem no fundo do meu peito.
Apossou-se do meu coração, com todo o direito
do nosso pleno amor, que nasceu e se criou.

Proprietária, posseira ou inquilina
deste meu coração, minha razão e meus poemas.
Transformou-se nesse tempo de paixão
no mais belo de todos os meus temas.

Eu a vejo sem reserva nem desvãos.
Não sei bem por qual sistema ela sorri,
com os olhos, com a boca e com as mãos;
e eu só lhe digo "para sempre estou aqui".

P/ Stella
Adhemar, 23/09/2008.

criado por adhbrgsz    16:27 — Arquivado em: Poesia

Casamento aos 19

 

O tempo parece que não passa. Pode parecer repetitivo e piegas dizer isso outra vez, mas a realidade é que Stella tornou algo fácil essa passagem tão suave desses primeiros dezenove anos de convivência. Totalmente pacíficos? Claro que não. Mas certamente, sua paciência nos momentos conturbados e sua compreensão nos momentos de impasse nos levaram a um convívio tão entrosado que parece que começou ontem. Se houveram crises, sempre foram externas; umas poucas de ordem familiar, muitas de ordem profissional e montanhas de crises econômicas. Nenhuma sentimental, nenhuma dúvida sobre o que queremos e sentimos em relação um ao outro. Se alguém merece os parabéns hoje aqui é ela, pela pessoa que é, que torna muito fácil e muito gostoso de amá-la.

Adhemar, 23/09/2008.

criado por adhbrgsz    11:43 — Arquivado em: Opinião

22/9/08

Bem vinda

 

Primavera.

Ouvi no rádio que chegas hoje,
às 14:29.
Por favor, não se atrase.
O Inverno já está cansado
e quer ir embora.

Somos incompatíveis, sabe?
O Inverno e eu.
Ele é um senhor meio ranzinza,
sempre de mau humor,
sempre cinza.
Encara tudo com uma certa frieza…

De repente me ocorre se tens relógio,
Primavera.
Não vá desmentir os meteorologistas
pois mais do que um anunciou
a hora do teu encontro com a gente.

O senhor meio ranzinza
despede-se elegantemente;
faz uma reverência tirando o chapéu,
acenando.
Um último sopro,
uma última lágrima fria
e lá vai ele, reumático,
caminhando…
Outro hemisfério o espera.

Entre, venha, sente-se.
Se aqueça, nos aqueça e nos ilumine,
querida e florida Primavera.

[Adhemar - S. Paulo, 22/09/2000]

criado por adhbrgsz    12:38 — Arquivado em: Poesia
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