Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

31/10/08

Ocaso

No calor de uma conquista
se encerram inúmeros mistérios.
As surpresas, os delírios,
o valor de não ser sério.
Dominando o alto esquecimento
renovando o que foi,
fica para trás o desejo insincero.

Recomeçar o que nem bem se sabe
buscando um talvez já bem incerto.
Subir no mais alto onde se avista
o que não se quer ver, ou um deserto.
Resistir a sucumbir ou a voar
deixando o corpo livre decidir
a se afastar para cada vez mais perto…

Desenganar o desenlace premedito,
palmilhar o próprio caminho inibido
e corado, envergonhado de ir por onde
tomado ao acaso como fosse o escolhido…
Descer do mais baixo e procurar acima
o destino reservado e impossível
assumindo um obscuro lugar bem definido.

Na loucura de tentar fazer gostar
o objeto tão especial é quase incesto;
morar na fuga tão inútil quanto besta.
Realizar o que o sonho apenas pode por um gesto
e gesticular clamando à si mesmo
toda a insanidade que há no mundo
como a serena majestade do universo.

Contentar-se em existir quando morrendo;
contentar-se em mentir, se verdadeiro.
Onde está quem está fora do lugar?
O que é feito de quem se sabe o paradeiro?
Tanto interrogar o que se sabe, cansa.
E no mais alto do fundo poço sentimento
torna humano o monstro que é o coração inteiro.

Tantas vezes sete vezes… E calar-se
no maior dos gritos, violento.
Prosseguir para trás o que no início acabou;
e colher, no desespero, mais alento.
Tempestade cerebral, tudo normal;
tempestade coração, tudo paixão.
Olhar o céu, imenso e vermelho firmamento.

P/BSF
[
[Adhemar - São Paulo, 15/02/1988]

criado por adhbrgsz    18:38 — Arquivado em: Poesia

30/10/08

Visões

Treinei para ver além.
Além do aparente, do próximo, do real.
Procuro, através das distâncias,
as profundidades.
Nos mapas,
o entorno dos caminhos,
apesar da saída e da chegada.
Mais do que o trajeto,
mais do que o transporte;
meios e fins em si,
intenções.

Estendi o olhar para mais que o firmamento,
para o entre astros,
universo.
Só não olhei para além do sol,
do riso sincero
e do rio cristalino.

Tentei decifrar os enigmas,
o estar vivo,
o ser, o aqui.
Adestrei os outros sentidos:
ouvir nas entrelinhas,
degustar os perfumes,
respirar as paisagens.
Tudo com muito tato.
Cheguei a ver, ouvir e cheirar
com as mãos.

E quando pensei ser possível
encontrar o meu habitat
descobri, neste mundo,
qualquer lugar.
Qualquer lugar é aqui.
Qualquer lugar é o meu lar.

[Adhemar - São Paulo, 30/09/2003]

criado por adhbrgsz    18:13 — Arquivado em: Poesia

29/10/08

Menina

 

Na chegada da noite
os teus olhos estão aqui.
Refletidos nas mais altas estrelas,
iluminando minha lembrança.

Uma pequena lágrima
decompõe os raios do reflexo estelar
dos teus negros olhos.

Dores antigas,
misturando dores novas,
ainda inibem mais carinho
e outras lágrimas.

Lágrimas de amor desastrado,
em hora errada,
mas tão suave, tão bom…

Ah, corações descuidados!
Vão no vento,
na brisa dos olhares,
dos gestos e das saudades.

Na humana confusão,
pousar o rosto em teus cabelos
e apertar as tuas mãos…

P/ MBM
[Adhemar - São Paulo, 24/08/1987]

criado por adhbrgsz    11:54 — Arquivado em: Poesia

28/10/08

Iridiscência

Sabe,
cheguei de novo tão tarde,
vazio, refletido.
Uma vontade de viajar…
Viajar como no sonho:
a teu lado,
pra Cuba, pra Ilhéus ou sei lá…
Voando acima das nuvens,
de olhos fechados,
com tua mão nas mãos.
Inspirar a infinita benção de Deus,
de estar vivo, te amar,
de querer viver sempre mais:
mais perto das pessoas queridas,
cumprindo ideais
- nem sei quais -
mas alegrando corações cada vez mais;
e a cada boa coisa realizada
ter o teu sorriso e o teu consentimento.
E saber.
Saber o imenso mistério da vida,
beijando a estrela mais linda
e tendo sua luz pra seguir.
E o caminho, cada vez maior,
mais bonito,
mais gostoso,
infinito.

Partir num raio de luz,
ir até o lugar desconhecido
que irradia toda a luz.
Ser um pequeno facho,
vagar no espaço
até te encontrar.
Derramado sobre ti,
no teu rosto iluminar os teus olhos,
realçar teu sorriso e morar
sempre nesse ar que cerca o teu ser.
Se alguém perguntar pra quê,
não sei dizer;
é bom ser respirado por ti,
quem sabe no teu coração indo ficar…

Mas, antes de entrar,
interrogar o céu.
Qual mensagem o céu quer me mandar?
Quer?
Imagino o outro lado da cidade.
Imagino o céu de lá.
Sei que é o mesmo céu daqui,
a nos cobrir e nos abençoar.
Fixo os olhos numa estrela tímida, escondida.
É ela a que mais vai brilhar,
derramando sua luz sobre o outro lado da cidade.
E você, sem saber,
banhada pela luz do meu olhar
vai se lembrar.
Vai se lembrar que em um ponto indefinido da cidade
há alguém,
dono de uma estrela
que, por menor que seja te ilumina,
te acompanha e te sorri.

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 29-30/08/1987]

criado por adhbrgsz    18:17 — Arquivado em: Poesia

27/10/08

Assunto

Queria escrever um tratado,
tratar de um tema mais sério.
No entanto, e não sem mistério,
de modo bem-humorado.

Queria discorrer de um problema
e também discordar do óbvio.
No entanto, sem ser impróprio,
ser do absurdo um emblema.

Queria provar uma tese
ainda que fosse estranha;
e distorcê-la, sem manha
tornando o dogma em hipótese.

Ao redigir essa monografia
fosse me revelando um esteta;
desmascarando o poeta
provando que tudo é poesia…

[Adhemar - São Paulo, 21/05/2006]
criado por adhbrgsz    18:40 — Arquivado em: Poesia

26/10/08

Piadas em verso (achei!)

1

Visitante de um museu,
o turista vai se cansando.
Ao avistar uma poltrona
chega perto e vai sentando.

Um guarda, então, adverte:
"- Essa poltrona, nesse canto,
é do famoso rei Luís XV;
faça um favor, portanto,
que aí não pode sentar!"

Ao que o turista subverte:
"- Amigo, pode deixar,
que eu de imediato me levanto
assim que ele chegar!"

2

Um tio ao seu sobrinho,
único e gastador:
"- De mim não terás um níquel;
para mim já estás morto,
seu imprestável esbanjador!"

Responde o sobrinho safado:
"- Titio, isto pra mim é um desterro!
Querido titio amado,
pelo menos me arranje uma grana
pr’eu providenciar meu enterro…"

3

E um novo inquilino
reclamando ao seu senhorio:
"- Meu antecessor, muito mofino,
deixou um monte de ratos
lá no seu casario!"

Diz o senhorio, cortês:
"- Meu amigo, que coisa, por Deus!
Ele não os reclamando em um mês
pode ficar com eles,
os ratos serão todos seus!"

[Adhemar - maio/1982]

criado por adhbrgsz    8:06 — Arquivado em: Brincadeira!

25/10/08

San Nicholas

O projeto apresentado no "post" anterior foi aprovado agora em setembro e é resultado de um trabalho bastante detalhado, tanto em termos do produto em si, como dos aspectos técnicos e legais que envolvem uma iniciativa desse tipo. Sob meu ponto de vista, retrata a maneira ideal de morar: poucas casas para uma grande área bem arborizada, espaços confortáveis e várias possibilidades de uso.

O lançamento está sendo estudado em função da "temperatura" do mercado face ao momento econômico; sua concepção me convenceu, definitivamente, sobre o que é "morar" - sob meu ponto de vista enquanto profissional da área.

Para finalizar, informo que este - salvo melhor juízo - será o último dos "posts" sobre arquitetura neste blog, que doravante irá tratar apenas das maltratadas letras em infindáveis cadernos que me atulham as prateleiras do cérebro e, por que não dizer, do coração. Sobre projetos vamos tratar em outras esferas que, assim que estiverem prontas, vou convidá-los a conhecer.

Adhemar, 25/10/2008.

criado por adhbrgsz    14:06 — Arquivado em: Arquitetura, Opinião

Vila San Nicholas


APRESENTAÇÃO (LOGOTIPO)


VISTA GERAL


FACHADA DAS CASAS


PLANTA PAV. TÉRREO


PLANTA PAV. SUPERIOR

FICHA TÉCNICA:

CONCEPÇÃO DO EMPREENDIMENTO: CONSTRUTORA TRAMIL
Geraldo Magella Cressoni

PROJETO: CONSTRUTORA TRAMIL
Arq. Adhemar Braga de Souza

IMAGENS: Arq. Douglas Tsui (vista geral)
UL - DIGITAL (imagens digitalizadas)

CONSULTORIA DE INSTALAÇÕES:

Saneamento básico:
 (distribuição de água, captação de águas pluviais e coleta de esgoto):
Eng. José Carlos Ferragut

Concepção geral de instalações hidráulicas e gás:
Eng. Cláudio José M. Oliveira

Concepção geral de instalações elétricas e iluminação:
Eng. Marco Antonio Lupo


Adhemar - S. Paulo, 25/10/2008.
criado por adhbrgsz    13:33 — Arquivado em: Arquitetura, Imagem

24/10/08

A luta

 

Um canto solitário para pensar na vida.
Outra encruzilhada após tanto esforço.
Outra bola dividida.
Muita apreensão e angústia, muito suor no rosto.

Um frio na espinha, uma dor de barriga.
Mais uma esquina da vida arbitrária.
Menos um mapa e uma intriga:
todo mundo indo pra lá, a gente na mão contrária.

Um produto pronto, projetado, acabado, pensado.
Uma idéia tonta, imutável até outra maior oferta.
Mais uma dúvida, fardo pesado.
Mais uma porta fechada que a gente não viu quando aberta.

Uma filosofia especialmente desenvolvida.
Mais uma justificativa, mais um escudo pra gente.
Outra razão reprimida,
muita apreensão e angústia, muita mágoa de repente.

Um canto solitário pra avaliar o fracasso.
Uma bobeira desalentada, nó desatado sem laço.
Outro tropeço num passo
e muita alegria otimista de um triste palhaço.

 

[Adhemar - Sto. André, 13/10/2008]

criado por adhbrgsz    11:10 — Arquivado em: Poesia

23/10/08

BECO

 

"O imprevidente pensador se viu emboscado, assim de repente. Sua filosofia, apesar de tê-lo advertido, não o salvou: assim do nada viu-se cercado por um muro intransponível de incompreensão e teimosia; lateralmente encarcerado por ignorância, intolerância e competição. Onde mais se julgara capaz parecia um principiante. Diante do tudo para o que se preparara sentia-se incompetente."

"O livre-pensador estava encurralado. Seus mais sinceros e latentes desejos, armazenados; seus dignos intentos, ameaçados."

"Nunca soubera se impor pela força ou pela autoridade, embora tivesse capacidade e potencial. Seus bons propósitos e honestos princípios pautaram sua linha de conduta. E o tinham conduzido a esse beco aparentemente sem saída. Com tenacidade, estava usando sua faculdade de pensar rápido para destruir a incompreensão. Determinado, movia-se no exíguo espaço ainda restante tentando ser abrangente na visão das soluções. Mas os muros foram se fechando e ele apelou para a única atitude imediatamente possível: agachou-se e começou a cavar."

"Enterrado por opção própria foi soterrado no ponto exato do caminho onde deliberadamente fôra acabar! Refletia, na toca onde estava, se continuaria ou se esperaria pela divina providência. Como um viciado, optou pelo meio termo: iria de encontro a ela. Mesmo sem movimentos largos, mesmo sufocado, continuou a escavar. Ou mudava seu tempo de verbo, ou mudava sua própria história."

"E foi escavando; machucando as mãos e o coração. Deixou para trás a violência, o terrorismo, a indignidade da pobreza absoluta, a ignorância deliberada, as misérias da intriga, da vaidade exacerbada, do mau-caratismo reinante, do oportunismo descarado, do egoísmo, da falta de solidariedade, das mentiras deslavadas e da falsidade. Ainda teve que enfrentar a imoralidade, a falta de ética e a ganância voraz."

"Quando chegou do outro lado, aflorando onde pensava escapar, deu consigo num cubículo exíguo, escuro e mofado. Estava encarcerado outra vez! Tinha acabado de escapar do mundo para dentro do seu próprio repertório limitado."

 

[Adhemar- Santo André, 26/07/2005]

criado por adhbrgsz    11:42 — Arquivado em: Prosa
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