28/2/09
O coração tremeu de frio.
Encolhido no seu canto,
tão quieto e tão sem espanto,
tão calmo e tão gentil…
Espera o calor de algum ponto,
mistério do coração tão discreto:
com frio mas de orgulho ereto,
não revela o seu terno encanto.
A magia de tanto segredo
é o amor que ele leva guardado;
o calor do beijo esperado
que ele espera tão firme e sem medo.
Mas se tudo for assim mesmo,
por que é que ele treme de frio?
Relembrar só lhe traz arrepio
pois busca o amor meio à esmo…
Ela está distante a tal modo
que ele se sente sozinho.
A incerteza da volta é o caminho
do coração que não a tem ao seu lado.
Este verso ficou complicado
como tudo o mais do amor.
Ele dela não tem o calor
mas espera fiel e calado.
Amar de verdade é assim:
um gostar tão sem limite
que nem de leve admite
que ela não goste de mim…
P/BSF
[Adhemar - São Caetano do Sul, 17/03/1988]
24/2/09
Levo os meus dias de poeta me repetindo,
me procurando,
me perdendo nesse desencontro de nós mesmos.
Até que me assusto ante um espelho
e esse velho com ar de menino
me espiando,
meio sorrindo,
vagamente conhecido
desembestando.
Levo os meus dias de poeta me achando,
pedaço por pedaço,
me torturando nessa lida,
no cansaço,
me produzindo e blasfemando.
Até que me encontro por inteiro,
ex-despedaçado,
catado e recolado
num enorme devaneio.
Levo os meus dias de poeta jogando,
apostando,
uma mão imprecisa, imperfeita,
perdendo e blefando;
me construindo e maldizendo
esse destino feito de rimas,
ou nem tanto,
de papel e muita tinta,
muito tema
sem parada e sem descanso!
P/ Hellinho Ferreira (do blog “relatos e belas mágoas”)
[Adhemar - 01/02/2009]
Recanto
Texto iniciado em 01/12/2008 em comentário no blog desse poeta cujas qualificações como tal dispensam qualquer comentário.
Adhemar, 24/02/2009.
22/2/09
Estava num futebol,
canela contra canela.
Pulava como u’a mola
pois estava jogando no gol.
De repente pensava nela
e passava a primeira bola.
Os companheiros me olhando:
“- Da próxima vez, cancela!”
Respondo: “- Não me amola!”
E eles me censurando.
De repente pensava nela
e passava a segunda bola.
O jogo vai prosseguindo,
nervoso como procela.
O gol parecendo gaiola
e o azar me perseguindo.
De repente pensava nela
e passava a terceira bola!
“-Assim não dá, minha gente…
Só dá frango na panela!!!
Não jogo mais nessa escola,
nosso goleiro é ausente…”
De repente pensava nela
e passava a quarta bola.
* * *
Perdemos de 15 a zero…
[Adhemar - São Paulo, novembro/1981]
Futebol de salão com amigos
Naquele tempo (e por muitos anos seguidos) jogávamos quase todos os domingos pela manhã, amigos, primos e irmãos, conhecidos e um ou outro desconhecido que invariavelmente completava o time. O conjunto de quadras tinha vestiários e uma lanchonete bem ao lado, onde o futebol acabava entre muitas risadas, refrigerante e cerveja. Vez por outra, alguém (de qualquer das quadras) levava irmã, namorada ou conhecida e elas ficavam vendo os jogos lá das mesas. Nesse dia especificamente, havia uma pequena pra lá de bonita, morena, um pedaço de mau caminho… O poemeto acima só não é totalmente verÃdico porque não foi só o goleiro que ficou distraÃdo…
Adhemar, 22/02/2009.
21/2/09
Passei na loja de penhores
e lá deixei
uns tantos antigos amores:
- fora de hora
- usados
- gastos
Alguns sem brilho,
meio embaçados;
alguns sem uso,
mesmo assim meio estragados.
Tinha uns fora de moda,
tinha muitos fora dos trilhos.
Outros tantos
totalmente por fora…
Inesperados?
Quilos e quilos!
E lá na loja de penhores
deixei também:
- amores não correspondidos
- amores pequenos
- romances compridos
Tudo apurado,
não deu vintém.
Passei então
com toda essa carga emotiva
no estabelecimento
de lixo reciclável…
[Adhemar - São Paulo, 27/06/2008]
16/2/09
A planta morre.
E realimenta a semente
que a faz ressucitar numa nova planta;
Amores morrem
e a melancolia de sua perda
abre o coração pra novos amores,
ou paixões.
E como diriam os poetas maiores,
morre o dia, deita o sol
para gestar na noite o novo dia
que nascerá no amanhã
enternecido pelas luzes da aurora…
Poeta!
Exagere se preciso for
porque nunca será exagero
os excessos em nome do amor…
Eu pensei que o que era verdade era verdade;
mas me atrapalhei.
Na verdade era feliz,
mas não quis,
mas não quis…
P/ Ylago (blog do Ylago)
[Adhemar - 16/02/2009]
Os poetas a procura de si mesmos!
Os dois primeiros trechos são comentários que fiz no blog do Ylago em outubro/2008. O terceiro é uma evocação (?) escrita em 02/04/2001 que tem a ver com um momento de reflexão: “escrever ou não escrever…?” Achei que tinha afinidade com o assunto. Aà está.
Adhemar, 16/02/2009.
14/2/09
Quisera eu descrever a trajetória dos cometas.
Quisera, poeta, descrever o espaço e os astros.
Nem astrônomo - quisera - saber como são estrelas
certas pessoas que vão muito além dos fatos.
Pessoas que por direito adquirido,
são mais altas, são melhores, são mais fortes.
Tem um rumo muito certo e definido,
não dependem do destino e nem da sorte.
Sempre presentes em horas certas ou erradas;
pessoas que passam a vida dedicadas
ou ao trabalho ou aos cirunstantes.
Nunca omissas, ou ausentes, ou cansadas;
muito vivas, entusiasmadas e vibrantes
que são amadas em todos os instantes!
P/ Nádia Iandoli de Oliveira Braga, Dra & TNQ
Adhemar - 14/02/2009.
TNQ
Não sei quem criou a sigla para a “Tia Nádia Querida”; se foi a própria, se foi algum sobrinho puxa-saco (que não este). No entanto, é bom que se registre, trata-se da irmã mais nova de minha mãe. Neurologista de respeito e renomada, tia de primeira grandeza, é grande companheira de nossas andanças quando éramos todos mais jovens, animadora e criadora de festas, cuida hoje praticamente sozinha da D. Júlia - mãe dela e nossa avó já apresentada aqui. Ainda por cima, vive seu conto de Pigmalião impelida por amor além da compreensão dos outros mortais e certa do que quer viver e de onde quer chegar; e que ninguém tem o direito de julgar. É um desses gênios da humanidade que dá um banho no assunto que domina e não sabia como se faz água quente (agora já sabe também!). É uma das raras pessoas - em minha opinião - que tem o direito de fazer o que bem quiser pelo que já deixou ao Brasil e ao mundo (ela e o Pelé). Enfim, TNQ, parabéns pelo seu aniversário, aceite este modesto testemunho de apreço e admiração.
Adhemar, 14/02/2009.
PASSEIO
Passo flutuando pela cidade, amontoados prédios, amontoados carros, multidão. Vejo centenas de rostos iluminados pelo sol da tarde, distorcidos pela perspectiva do movimento e pela névoa emanada pela aura das pessoas. Fachadas e vitrines se sucedendo, luzes piscando e ruÃdos tipicamente urbanos se misturando com a algazarra do povario. O tépido calor vespertino e o amarelo do azul do céu se distanciam na densa poluição visÃvel. Mesmo assim há o ar para respirar e muito movimento pra ver.
ANDANÇA
Nos caminhos que tenho percorrido Deus tem me mostrado tantas coisas para aprender e pra evitar. Apenas imagens, pequenos fatos, atitudes de terceiros. Aprendi a caminhar de olhos abertos para além das aparências superficiais. Se isso tem me valido de alguma coisa é algo que ainda não sei. Só sei que preciso prosseguir e Deus também tem me mostrado aonde ir. São caminhos suaves, arredondados, docemente perfumados e liricamente iluminados. Ele tem provocado a mudança de ângulo para que a vista seja uma nova filosofia: a filosofia de um interminável aprendizado…
[Adhemar - 26e27/05/2006]
10/2/09
Gente, este disperso “amigo” não percebeu que o texto abaixo - “AMIGOS” - foi postado em 20/06/08. Isso porque sou organizado e anoto no canto da folha os textos que vem para cá. Então, fica um “replay” pra vocês que já tinham visto e um convite pra “navegar pra trás” pros que chegaram depois; e podem pular dia 20/06…
ADHistraÃdo, 10/02/2009.
Amigo é aquele ser intangÃvel
que não exige de nós
o que não podemos lhe dar.
E a quem, curiosamente,
damos sempre o melhor
sem que ele peça
e nem mostre precisar.
Tudo isso acontece sem que se note.
Amigo é presença constante
sem ser preciso estar.
Amigo é sangue da gente,
cuja dor dói na gente
e a felicidade da gente
fica dele também!
A amizade é o olhar;
cumplicidade silenciosa
e atenção permanente.
A todos os meus amigos, inclusive os daqui, mesmo os nascidos depois deste escrito!
[Adhemar - São Paulo, 24/08/1987]
9/2/09
Uma cacofonia sinfônica reverbera no lugar dos pensamentos;
uma sinfonia sem cautela,
uma sucessão de acontecimentos -
sem sucesso, sem tutela.
RuÃdos intermináveis confundindo a cachimônia
numa tal sem-cerimônia
que irrita e embevece.
Emociona-se na balbúrdia que tortura e envelhece.
Uma súbita vontade de partir para o silêncio e a sombra.
Uma viagem sem retorno
para além de onde se assombra,
para onde não há extremos de frio, de quente ou morno.
Um extremo bem no centro
sem média, sem mÃdia, sem fama.
Um lado externo por dentro,
um pântano sem lama.
A barulheira arrepia no lugar dos pensamentos.
Um dia após outro dia
na crista dos acontecimentos;
tranquilidade arredia…
[Adhemar - Sto. André, 21/08/2008]