Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

25/4/09

ESTRUTURA

Tantos assuntos tontos,
tantos espantos tensos,
teimas nos panos quentes,
temas temidos tempos.

Prosa ambígua, rasa.
Cada metade basta,
causa maldade tola,
atola na mesma casa.

Máscaras, rosto atrás.
Más caras, feios roteiros.
Toda intenção de fato
é feito um assunto tosco…

Pernas andando retas,
setas soltando fogo;
jogo, archote, dado,
carta, deixa que eu pago.

Deita a cama no lago;
logo o amor se desfaz
na paz do que for tudo,
sobretudo… Se for capaz!

[Adhemar - São Paulo, 21/07/2005]

Demolição…

Há uma nota no radapé do rascunho: “melhorar muito”. Desculpa aí, não deu.

Adhemar, 25/04/2009.

criado por adhbrgsz    10:18 — Arquivado em: Poesia

22/4/09

LOCAL!!!

 

Som ambiente, conforto, frescor de sombra de árvore sem cocô de passarinho mais a amplitude de um espaço aberto. Mesmo assim é um espaço interno; um vasto espaço interno onde tudo pode acontecer, inclusive o ruído de um regato de água límpida e fria para completar o recanto do folgado.

Esse maravilhoso lugar existe e produz coisas majoritariamente estranhas, mais em forma de palavras do que imagens ou espaços tridimensionais: é o meu cérebro, um lugar perturbador e fascinante, que eu não consigo tirar da cabeça!

[Adhemar -  São Paulo, 22/08/2005]

criado por adhbrgsz    7:30 — Arquivado em: Brincadeira!, Prosa

19/4/09

Mudando de assunto

Numa palavra, uma virada.
Muda-se o tema da conversa.
Num instante contava-se piada;
no outro, uma disputa controversa.

Erguem-se as vozes numa acalorada discussão.
Erguem-se os copos para um brinde qualquer.
Num instante fala-se de assuntos do coração;
no outro, fala-se apenas de mulher.

E o futebol então, sempre presente.
Más notícias de política ou de economia.
Nesse ritmo, mesmo que não se aguente
pede-se mais uma e a conversa se esvazia.

Entre dúvidas e certezas se navega
nessa ebulição da mente etílica.
Uma tese que se prova ou teoria que carrega
a se provar numa experiência empírica.

A família e o trabalho - corolários -
e lembranças e memórias mil…
Amigos mortos, casamento, aniversários,
o mundo em geral e o Brasil.

Até que o que morre é a conversa,
cada um ensimesmado e pensativo.
Pede-se a saideira que desperta
e que devolve a cada cela o seu cativo…

[Adhemar - São Paulo, 04/10/2008]

Mudando de palavra

Onde se lê “cela”, no último verso, pensei em trocar por “vida”; mas preferi deixar como estava no original. Adote a expressão que melhor lhe parecer…

Adhemar, 19/04/2009.

criado por adhbrgsz    10:51 — Arquivado em: Brincadeira!, Poesia

17/4/09

Então…!

Pra dizer “eu te amo” é preciso “entender de amor”?
O desententido entende o que o especialista jamais consegue apreender;
quanto mais entendido acha ser
mais perguntas e mais perdido…
O que do amor perdidamente há que se entender
é que o amor não é para ser estudado,
rotulado,
analisado
ou classificado:
apenas é preciso viver.
E o amor inesperado surgirá
fraterno,
romântico,
filial,
apaixonado,
egoísta ou generoso,
fiel ou relaxado.
Então o amor é pra amar
ou deveria ter perguntado?!

(Comentário no blog de Danny Z.)
Adhemar, 17/04/2009.

criado por adhbrgsz    20:31 — Arquivado em: Poesia

16/4/09

DELÍRIO MELANCÓLICO

Gotas de suor no rosto,
cabelo desfeito, camisa rasgada.
Uma vaga sonolência que não define o que se faz;
não é suficiente para dormir,
não é estimulante para acordar.

Ouvem-se os sons da noite no quintal.
Uma festa, a festa da noite.
Fechar os olhos e pensar,
um velho hábito.
Calmo e velho hábito.

Calmamente pensar e sentir o desejo de ficar só.
Não sei se o pensamento e a calma trazem você.
(E é bom).
Cada vez mais tranquilo tento me buscar em mim,
mas não consigo.
Já me desprendi, em outra esfera te espero.

A saudade vem me chamar dos devaneios,
dizer que a manhã se aproxima
e que é necessário sonhar.
A música é tão linda,
não dá vontade de parar de escutar.

Imagino: você me convida
pois há tantas convenções por derrubar.
Versos e mais versos me assaltam e fogem,
bandidos da minha alma.
Há tantas convenções por derrubar…

Com versos, socos,
talvez seja preciso gritar.
Enfim, puxar a cortina de um palco
e libertar a liberdade atrás dessas cortinas…
O mar, o sol e a liberdade.

Livre e feliz para ir aonde quiser.
Gotas de suor no rosto.
Gotas de lágrimas,
gosto de sal.
Gotas de lágrimas a rolar
e a secar aonde caem…

P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 29/08/1987]

criado por adhbrgsz    18:46 — Arquivado em: Poesia

15/4/09

Raciocínio

A lógica é muito relativa e precisa ser contrariada para se confirmar. Mais refletida, passa a se justificar melhor, sai fortalecida dos desafios lançados. O fio condutor do pensamento lógico é contínuo, intenso e resistente. A lógica, por si só, é quase uma ciência. É apaixonante e jamais será contraditória.

A lógica é muito orgulhosa. Porque faz sentido, porque tem razão. Sempre se prova, mesmo numa linha tortuosa sempre prevalece, sempre ganha. Vira teses e tratados, grandes filosofias. Abstratamente concreta, a lógica ensina, encadeia e apresenta sentido; cobra uma postura ou apoio. A lógica, porém, tem vertentes. Ramificações perceptíveis, prováveis, outras tantas certezas derivadas da certeza central e dominante.

A lógica é loucamente irritante.

[Adhemar - São Paulo, 27/06/2006]

criado por adhbrgsz    20:58 — Arquivado em: Prosa

14/4/09

SETENTA ANOS

Esta é uma história originada de uma ferida aberta. Uma laceração destilando as inquietações de uma alma determinada, decidida a imprimir um peso específico e certeiro a cada palavra - dita ou escrita - para que não pairem dúvidas sobre sua idoneidade ou intenções; firmemente convicta que é melhor não estancar tal hemorragia.

Não importa o risco de amputação de um membro, nem a palidez decorrente da perda de todo o sangue. O mesmo que em vão já foi derramado e também aproveitado em transfusões. Não há dor, embora não haja anestesia. Indiferente à temperatura de ebulição, de encontrar algum apoio para as mãos ou da existência de curativos e desinfetantes, esta é uma história parada no centro de uma poça vermelha.

De repente, bem no meio desse enorme corte, começa a sair a própria essência da carne, nervos e músculos, revirados numa revolta. E a medida que vão saindo, vão formando um novo corpo revitalizado, fazendo a velha casca murchar e cair como o miolo do sol no centro de sua auréola. É o fim do seu banho hematóide. É a reencarnação física renovada terminando pelo próprio cérebro ora remoçado. E uma nova película nasce e envolve o novo reencarnado.

Uma vez pronto, ele pisca os novos olhos. Olha em volta de si e se dá conta de que o que foi antes está no chão, como lixo hospitalar ou restos mortais de um cachorro atropelado. E por pensar nisso, repara que está complemente nu - inclusive de referências. A desvantagem de ter o repertório vazio é que é mais difícil recomeçar; a vantagem é que está livre para fazer o que bem entender, sem medo de errar. Descalço, salta os próprios destroços procurando se situar, saber onde está, o que é e por onde começar. Por exemplo, achar uma cama e deitar; achar o seu sono e dormir; achar o seu mundo e sonhar.

P/ Tia Nancy
[Adhemar - São Paulo, 25/05/2004]

Tia Nancy

Na verdade, ela fez setenta anos em 3 de julho de 2004; mas havia escrito este texto antes, dedicado a essa irmã de minhã mãe que sempre foi protetora dos sobrinhos, a voz da razão e da concórdia nas disputas entre nós… Casada com o Tio Antonio - o Tonho, uma espécie de ídolo da gente com jeito simples e companheiro - ela continuou nos homenagenado com suas feijoadas excepcionais, cuscuzes sublimes e mousses de maracujá de fazerem os deuses descerem à terra. Tímida, assustou-se com o teor desse texto cujo conteúdo achou violento; ela, que renasceu tantas vezes de situações difíceis que a vida lhe impôs, inclusive agora, enquanto se recupera de uma cirurgia no abdomen. Mas tem tudo a ver com ela, esse texto “vermelho” que é nossa cor predileta (dela e minha). Que Deus te abençôe e proteja, Tia Nancy!

Adhemar, 14/04/2009.

criado por adhbrgsz    21:01 — Arquivado em: Prosa

11/4/09

Ocorrência

As palavras se perderam cantadas ao vento,
escorridas pelo ralo do chuveiro
ou pelos ecos do pensamento…

As palavras se perderam foragidas, exiladas,
refugiadas do seu próprio sentido,
estranhas e mortificadas.

As palavras se perderam caladas,
embriagadas de desentendimento,
frustradas, entediadas pelo divertimento.

As palavras se perderam consagradas a um momento,
a um amor , uma paisagem,
uma passagem no portal do tempo.

As palavras se perderam confundidas,
misturadas aos gritos da torcida…

As palavras se perderam, se encontraram
e resolveram não dizer mais nada.

[Adhemar - São Paulo, 10/04/2009]

criado por adhbrgsz    16:25 — Arquivado em: Poesia

7/4/09

LUA

O espaço infinito dividido em astros.
O coração é como espaço infinito,
infinitos astros.

Nós, que não somos nada,
temos um infinito espaço guardado em nós,
vibrante, pulsátil.

Lembre sempre
- e nos momentos mais angustiosos -
que és a Lua nesse meu cosmo interno.
Um pequenino mas brilhante astro,
lindo de se ver em todas as fases,
influente nas marés, nos ventos,
nas tempestades…

Inspiradora de canções, poemas,
amor e… Saudades!

P/ SM
[Adhemar - 24/05/1999]

criado por adhbrgsz    19:49 — Arquivado em: Poesia

5/4/09

Desejos simplificados

Nadar de braçadas num oceano tranquilo.
Balançar numa rede durante o mormaço da tarde.
Passar o tempo chuvoso debruçado sobre um bom livro.
Passar o verão e outono caminhando à toa na praia.

Ver crescer o coqueiro - e esperar que o côco caia!
Inspirar profundamente o cheiro das plantas após a chuva.
Assistir o pôr-do-sol no horizonte
até a noite surgir estrelada.
Observar o céu azul marinho
naquela paz que nada perturba.

Comer sem gula nem hora
erva-dôce e cachos de uva.
Respirar ar puro o dia inteiro,
beber água da fonte mais pura.
E ter flores, as mais coloridas,
num grande e belo canteiro.

Apreciar na intimidade
as formas da companheira.
Amar sem urgência nem culpa,
fazê-la feliz num momento
que dure a vida inteira;
e cantar em prosa e verso
o sucesso da dupla…

Viver simplesmente em paz com o mundo.
Viver simplesmente em paz com a gente mesmo.
Viver com saúde de menino taludo
e comer a feijoada completa,
com caipirinha, tutu e torresmo!

[Adhemar - São Paulo, 13/07/2008]

criado por adhbrgsz    19:26 — Arquivado em: Brincadeira!, Poesia
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