30/6/09
Tem horas que a vida parece música de Bach: uma interminável introdução. A gente vai caminhando de olhos fechados - ou olhando de lado - no rumo do abismo. E não para. A gente está na iminência de fazer uma besteira, e não para. Aí a gente vê que não é mais criança, bate uma saudade danada dos pés de milho, da casca da espiga, de subir em árvore, assustar passarinho, ver carreira de formiga, fazer brinquedo de galhos e pedras, jogar bola na lama, sequestrar as bonecas da irmã, resgatar amigos imaginários, casar com a moça mais bonita do sonho e não querer tomar banho! Lambuzar a cara de doce, brincar no castigo, ler gibi dentro do livro ao invés de estudar… Falar palavrão e ficar repetindo, esquecer papel de bala no chão…
De repente acorda do devaneio, vê que não é mais criança e chega a conclusão de que ser gente grande é um saco! Mas descobre que a criança ainda existe e se a gente deixar ela triste aí é que complica mais!
E não sai da introdução…
[Adhemar - Santo André, 13/10/2008]
28/6/09
De uma folha morta
a terra se alimenta;
e sempre foi assim,
pouca gente nota.
De uma linha torta
a gente se endireita
mesmo que no fim
bata à própria porta.
De uma ferramenta
a idéia se constrói.
E sempre foi assim,
muita gente aumenta.
De uma linha certa
acha-se onde dói
mesmo que no fim
não seja doença.
De uma folha branca,
de uma ferramenta,
um verso se constrói.
Mesmo que o poeta
em sua presença
não se queixa nem lamenta,
não saiba se aguenta
nem perceba aonde dói!
[Adhemar - Santo André, 10/01/2007]
27/6/09
Até romper seus próprios rancores
e desafiar a gravidade,
matar de fome os seus temores
e saltar sobre a cidade.
Marcar a reunião com os algozes,
evitar a via engarrafada;
faltar e gravar as suas vozes
e se justificar com a piada…
Cozinhar em fogo brando os problemas
e retemperá-los com surpresa.
Desmanchar a receita e os esquemas
com salada, aperitivo e sobremesa.
Suportar os piores estertores
até romper com seus próprios dissabores.
Levantar para comprar novos humores,
investir na bolsa de rumores
e tentar sacar alguns amores;
porém levando em si algum pudor e muitas flores…
[Adhemar - São Paulo, 27/06/2008]
25/6/09
A noção do que já foi o tempo…
Se perdeu…
No perdão de um vago esquecimento
que não esqueceu.
Na presença,
que do coração é o alimento,
o sentimento sobreviveu.
Sua força,
uma reta ascendente,
acendeu…
Acendeu a primeira chama
que nos chamou,
nos prendeu.
Presos num lindo reencontro
que delicadamente denuncia
o que a mais terna amizade
nem traiu nem escondeu…
P/SHFC
[Adhemar - São Paulo, 08/05/1987]
Chorar!
Escrito para uma linda amiga que me roubou um beijo que lhe neguei.
Adhemar, 25/06/2009.
22/6/09
Doces perfumes,
paz,
praias e mar.
O sol nascendo e se pondo,
reflexões.
Sabores novos,
esperanças,
um novo lugar.
Vento constante,
tranqüilidade.
Os pensamentos saneados e leves,
alegres,
numa expectativa positiva.
Torcer?
Pedir a Deus que interceda?
Aprender a renovar o que se sabe?
Sim.
Doces perfumes.
[Adhemar - Aracaju, 28/01/1988]
21/6/09
Trajeto…
Hora cara.
Rastreamento, limpeza, reflexo.
Essência do amor.
Alinhamento aleatório
de novos e antigos conceitos.
Formando projetos.
Conveniências.
Acessórios genuínos.
Mundo avesso,
autorizações e mandados.
Tudo compreendido entre duas extremidades:
opção e ação.
Manchas nos olhos
toldando a visão.
Luz de velas,
todos vivos,
velando a escuridão!
Cadeia…
Disco desconto dez contos.
Torno contorno coturno.
Mulher melhor meu olhar.
Poesia, pó e azia, pô! É a Ásia!
Oculta, ó culta! É curta.
Associação só social há só ação.
Contágio contagem quanta gente!
Passaporte passa a porta passa e aposta.
Contato com tato comodato.
Partida partitura par de atitudes.
Relação reação releitura.
Agita a gente agente.
Dormente tormento da mente
o escuro obscuro obtuso
contudo com tudo contente;
teimoso ter mais, terminou.
E não há nenhuma dúvida:
definitivamente endoidou!
[Adhemar - São Paulo, 06/05/2005]
Delírio
Não lembro se estava com febre, ou de fogo… O fato é que… Também não entendi!!!
Adhemar, 21/06/2009.
14/6/09
De repente me dou conta:
cada vez mais afastado do sonho
eu me nego, eu me entrego e eu me estranho
numa vasta estrada que desponta.
De repente me dou conta:
como o o rei da fábula estou nu,
por toda pressa dessa vida estou cru
no beco sem por onde nem saída encontra…
De repente me dou conta:
apostas encerradas, fico fora.
O que será que acho agora
nessa louca vida tonta?
De repente, uma afronta:
realidade e sonho apartados,
nós do mundo, mais que alienados
numa vida que já não é da nossa conta!
[Adhemar - São Paulo, 04/10/2008]
11/6/09
PQ
Fiz só pra você
estes versos tão meus
que ora deixam de ser
pois agora são teus.
Sabes que gosto de ti.
Moras dentro de mim
onde existe um lugar,
coração, chamado assim.
Sei que a felicidade
é você sempre bem perto.
Se de ti tenho saudade,
longe estás, por decerto…
Procurei as melhores palavras
mas são as que não existem
para dizer o que sinto
quando te vejo, amada…
SD
Andando pelas ruas da cidade
penso naquela que roubou meu coração;
e, quando começa a tempestade,
dentro do peito é que sinto o trovão…
Molhado o rosto numa nuvem só de água,
que vem lá do fundo da canção,
o barco afunda levando antigas mágoas
carregadas nesta pobre embarcação…
P/ MG
[Adhemar, setembro/1981]
10/6/09
Sombra vazia,
descabelada.
Grito terrível,
agonia,
uivo,
gemido,
desarmonia.
Medo,
terror,
castiçal.
Tortura lenta,
hipocrisia,
pacto fatal.
Sombra da morte,
heresia,
sombra da escuridão.
[Adhemar - São Paulo, 20/08/1987]
7/6/09
De repente me descubro acenando à esmo para tanta gente que me cumprimenta. Alguns acrescentam palavras de apoio e estímulo; outros se limitam a breves acenos aprovadores. Enlevado, deixo-me flutuar em frente, olhando para todos os lados e aquiescendo com as manifestações surpreendentes. Em meio a essa algazarra, me pego pensando: “por quê? O que foi que eu fiz de relevante - ou importante? Quem sou eu nesse contexto popular? Um babaca bem promovido? Ou um reles tolo apalermado e convencido?”
De repente me descubro subindo dentro do nevoeiro desse cenário. As pessoas se despedindo, se dispersando até sobrar só um - que nunca vejo. O meu mais ardoroso fã, meu seguidor incansável. Bate palmas, pede bis, aplaude tudo o que eu faço. Uma dúvida me abate: dispenso esse pobre palhaço? Não, muito pelo contrário; o encorajo e alimento. Dou-lhe abrigo, respaldo, incentivo, justifico-o, defendo-o. Afinal, esse fã leva o meu nome, o meu talento e o meu cansaço.
[Adhemar - Santo André, 05/09/2008]