Arquitetura e poesia: Literatório

Impressões pessoais sobre tudo em geral e nada em particular; a sutileza que entremeia as diferentes expressões destas artes; a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida.

8/11/09

BIDIVISÃO

Machadada,
coco rachado;
metade pra cada lado,
dívida, dúvida
e um mal pago.

Facada,
queijo cortado.
Já não serve pro provérbio,
nem pro ditado.

Agulhas,
botão costurado;
tesoura,
pano cortado.
O que da união faz o açúcar
o calor o faz melado.

Unha -
migalha pela metade.
Tudo se divide,
infinitamente,
basta um pouco de vontade!

[Adhemar - São Paulo, 23/07/2009]

criado por adhbrgsz    7:19 — Arquivado em: Brincadeira!, Poesia

2/11/09

BENS

Por vezes é preciso analisar cuidadosamente o tempo disponível e gastá-lo todo num planejamento meticuloso do que poderia ser feito por ele mesmo - durante esse próprio tempo - sem maiores elucubrações. Depois, sair correndo atrasado, pois o planejamento do tempo gastou o tempo antes livre. Acumularam-se tarefas por fazer, acumularam-se atrasos. Tornou-se essencial resistir às provocações que serão outras atividades criadas, surgidas do nada e para nada destinadas.

Tal como um passatempo, passar a vida rogando por mais tempo e por mais tempo a fim de que seja o bem mais precioso e mais empobrecedor da nossa existência. Rezar com fervor para não sermos cobrados pelo tempo que desempregamos. Até nos despedirmos, como faço agora, pois estou sem tempo pra continuar esta lengalenga “destemperada”…

[Adhemar - Santo André, 15/01/2007]

E por falar em tempo…

Um afetuoso abraço e um terno beijo à minha madrinha, mãe de minha mãe, a Vó Júlia. Completa hoje 95 anos de existência, quase toda ela voltada para a família: além dos próprios pais, irmãos e irmãs, o Vô, as 5 filhas, 12 netos, 13 bisnetos e uma tataraneta! Incontáveis amigos e admiradores. Será que contei direito? Hoje, o fã clube vai se reunir em torno dela (uma de suas maiores alegrias). Até já, Vó!

Adhemar, 02/11/2009.

criado por adhbrgsz    8:56 — Arquivado em: Brincadeira!, Prosa

25/10/09

Profundidade

A gente nunca chega a conhecer completamente às pessoas. Aliás, a gente nunca chega a conhecer completamente nem à nós mesmos! Capacidades inatas, caráter, profundidade da alma… Enfim, podemos conviver conosco por uma eternidade de tempo sem perceber certos potenciais, sem reparar em alguns defeitos.

Somos uma espécie de bar onde há solitários, fanfarrões, bêbados e sóbrios, todos perdidos entre discussões inúteis e silêncios dispensáveis. Nesse interminável anoitecer, a gente vai ignorando o próprio cinismo. Aí, defrontamo-nos com esse nem tão estranho desconhecido que nos diz coisas vagamente familiares e que a gente entende mesmo em meio ao maior tumulto. Depois se lembra aonde tinha visto o ilustre e famoso quem: no próprio espelho…!

A gente fica tão distante de si mesmo que nos perdemos em meio a idéias e caminhos embaralhados, atitudes diversas, variadas, indecisas. Coça a cabeça, olha para os lados e senta próximo ao balcão esperando a próxima revelação: uma apresentação formal de nós, por nós, numa imprescindível - ainda que tardia -  confraternização.

[Adhemar - São Caetano do Sul, 04a10/10/2005]

criado por adhbrgsz    8:50 — Arquivado em: Brincadeira!, Prosa

11/10/09

Renovação B

É preciso sempre recomeçar,
passar a limpo e revisar.
A idéia mal expressa
será mal interpretada;
a ambiguidade terá sempre uma terceira via.
O herói será o vilão
e os vilões serão perdoados.

E lá estaremos a remontar a história,
como um grande vaso quebrado.
A cola de cada um
e a lembrança desse mesmo vaso
é que o fará ressurgir
- no máximo - remendado.
Seja com qual forma for
não passará de um amontoado de cacos
mais ou menos organizado.

E seremos os mesmos nós mesmos
a inventar justificativas
- burras ou criativas -
para fazer a história “colar”.
Sejam os pedaços desse vaso,
sejam outros fatos esparsos.
E recomeçando, passando a limpo,
não esquecendo de revisar.

Nessa novela esquisita,
realinhando os personagens
e mudando a história no meio,
só para variar…

[Adhemar - São Paulo, 11/09/2005]

criado por adhbrgsz    23:52 — Arquivado em: Brincadeira!, Poesia

6/9/09

Tempos modernos

Onde está o sentimento
neste mundo apressado?
Onde está o gesto amigo,
a mão estendida,
o dinheiro emprestado?

Cadê os fiadores,
a confiança,
o fio do bigode?
Quem tem tempo pro papo tranquilo,
pro café, pro… Quem pode?!

Visitar os amigos,
ir a festas juninas
ou a outras quaisquer?
Onde vai um tempinho pros filhos
ou pra sair co’a mulher?

E a rotina estressante,
só trabalho e só compromisso?
Em casa limpeza e arrumações;
nada de restaurante, zoológico
ou parque de diversões…

Até o velho “futiba”,
só na televisão.
Nem mesmo ir ao quintal
pra andar de patinete!
Por fim, a bronca fatal,
se está a jogar no computador o moleque:
- Saia daí, menino,
que o papai precisa entrar na internet…

[Adhemar - 21/07/2000]

criado por adhbrgsz    10:08 — Arquivado em: Brincadeira!

30/8/09

Subvertido!

Quis fazer uma quadra,
só que errei o tema:
encaixei Lampião - e uma ladra -
que de ninguém tem pena.

Olhe, pus Ronald Bigs!
Um belo ladrão - oh! Sim!
E, sem querer, pus aqui
Mancha Negra e Arsène Lupin.

Só faltou mesmo Robin Hood
nesta quadras confusa,
ou bandidos de Hollywood…

Coisa que não se usa…
Enfim, saí mesmo da trilha
e quadra virou “quadrilha”!

[Adhemar - novembro/1981]

criado por adhbrgsz    8:02 — Arquivado em: Brincadeira!

16/8/09

Torpor

Véspera de gripe.
Assar os dedos na testa.
Um anseio aflito pra tossir.
Um globo ocular dolorido,
o outro doido pra dormir.

Um frio enorme,
agasalhado,
num tremor muito suado.
Coriza e iceberg.
Ossos vibrados.
Cabeça grande,
o resto entregue.

Véspera de gripe;
crise de vitamina.
Uma fome nauseada
e muito creme por cima.
Dói até o cabelo,
um espirro muda o clima.

Conforto no desassossego
a se indispor no aconchego.
Entrecortar o soluço
e sufocar com remédio…

[Adhemar - São Paulo, 28/07/2008]

Suína?

Escrito muito antes de aparecer a tal da gripe suína, esse texto surgiu numa véspera de gripe. Aliás, quando aparecem os sintomas, resisto obstinadamente em “aceitá-los”, mentalizo que não vou adoecer e fico me repetindo isso como um “mantra”. Aprendi isso com minha mãe e quase sempre dá certo… É lógico que essa providência vem devidamente acompanhada de precauções e, raramente, por remédios. Mas voltando pra “influenza”; hoje, um espirro não só muda o “clima” como pode provocar um linchamento…

Desejo a todos muita saúde e, sem pânico, alguns cuidados a mais!

Adhemar, 16/08/2009.

criado por adhbrgsz    9:41 — Arquivado em: Brincadeira!, Poesia

4/7/09

PERSPECTIVA

Eu queria ser um desenho
desses tridimensionais.
Pode ser um estranho desejo
de estranhas reações normais.

Um desenho em preto e branco,
com sombras e tudo mais.
Significativo, no entanto,
linhas dramáticas e reais.

Ou um desenho colorido,
com brilhos, anúncio grátis.
Apegado a um papel querido,
esquadros, réguas e lápis.

Seria um desenho nítido,
com firme e belo traço.
Significado transparente e límpido,
curvas feitas a compasso.

Não seria jamais prisioneiro!
Livre, sem preocupações ou ruga
estaria, sempre ligeiro,
escapando pelos pontos de fuga!

[Adhemar - São Paulo, 03/02/2000]

criado por adhbrgsz    10:44 — Arquivado em: Brincadeira!, Poesia

21/6/09

TRAJETO E CADEIA

Trajeto…

Hora cara.
Rastreamento, limpeza, reflexo.
Essência do amor.
Alinhamento aleatório
de novos e antigos conceitos.
Formando projetos.
Conveniências.
Acessórios genuínos.
Mundo avesso,
autorizações e mandados.
Tudo compreendido entre duas extremidades:
opção e ação.
Manchas nos olhos
toldando a visão.
Luz de velas,
todos vivos,
velando a escuridão!

Cadeia…

Disco desconto dez contos.
Torno contorno coturno.
Mulher melhor meu olhar.
Poesia, pó e azia, pô! É a Ásia!
Oculta, ó culta! É curta.
Associação só social há só ação.
Contágio contagem quanta gente!
Passaporte passa a porta passa e aposta.
Contato com tato comodato.
Partida partitura par de atitudes.
Relação reação releitura.
Agita a gente agente.
Dormente tormento da mente
o escuro obscuro obtuso
contudo com tudo contente;
teimoso ter mais, terminou.

E não há nenhuma dúvida:
definitivamente endoidou!

[Adhemar - São Paulo, 06/05/2005]

Delírio
Não lembro se estava com febre, ou de fogo… O fato é que… Também não entendi!!!

Adhemar, 21/06/2009.

criado por adhbrgsz    11:42 — Arquivado em: Brincadeira!, Poesia

7/6/09

Notoriedade

De repente me descubro acenando à esmo para tanta gente que me cumprimenta. Alguns acrescentam palavras de apoio e estímulo; outros se limitam a breves acenos aprovadores. Enlevado, deixo-me flutuar em frente, olhando para todos os lados e aquiescendo com as manifestações surpreendentes. Em meio a essa algazarra, me pego pensando: “por quê? O que foi que eu fiz de relevante - ou importante? Quem sou eu nesse contexto popular? Um babaca bem promovido? Ou um reles tolo apalermado e convencido?”

De repente me descubro subindo dentro do nevoeiro desse cenário. As pessoas se despedindo, se dispersando até sobrar só um - que nunca vejo. O meu mais ardoroso fã, meu seguidor incansável. Bate palmas, pede bis, aplaude tudo o que eu faço. Uma dúvida me abate: dispenso esse pobre palhaço? Não, muito pelo contrário; o encorajo e alimento. Dou-lhe abrigo, respaldo, incentivo, justifico-o, defendo-o. Afinal, esse fã leva o meu nome, o meu talento e o meu cansaço.

[Adhemar - Santo André, 05/09/2008]

criado por adhbrgsz    8:38 — Arquivado em: Brincadeira!, Prosa
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