2/11/09
Por vezes é preciso analisar cuidadosamente o tempo disponÃvel e gastá-lo todo num planejamento meticuloso do que poderia ser feito por ele mesmo - durante esse próprio tempo - sem maiores elucubrações. Depois, sair correndo atrasado, pois o planejamento do tempo gastou o tempo antes livre. Acumularam-se tarefas por fazer, acumularam-se atrasos. Tornou-se essencial resistir à s provocações que serão outras atividades criadas, surgidas do nada e para nada destinadas.
Tal como um passatempo, passar a vida rogando por mais tempo e por mais tempo a fim de que seja o bem mais precioso e mais empobrecedor da nossa existência. Rezar com fervor para não sermos cobrados pelo tempo que desempregamos. Até nos despedirmos, como faço agora, pois estou sem tempo pra continuar esta lengalenga “destemperada”…
[Adhemar - Santo André, 15/01/2007]
E por falar em tempo…
Um afetuoso abraço e um terno beijo à minha madrinha, mãe de minha mãe, a Vó Júlia. Completa hoje 95 anos de existência, quase toda ela voltada para a famÃlia: além dos próprios pais, irmãos e irmãs, o Vô, as 5 filhas, 12 netos, 13 bisnetos e uma tataraneta! Incontáveis amigos e admiradores. Será que contei direito? Hoje, o fã clube vai se reunir em torno dela (uma de suas maiores alegrias). Até já, Vó!
Adhemar, 02/11/2009.
25/10/09
A gente nunca chega a conhecer completamente à s pessoas. Aliás, a gente nunca chega a conhecer completamente nem à nós mesmos! Capacidades inatas, caráter, profundidade da alma… Enfim, podemos conviver conosco por uma eternidade de tempo sem perceber certos potenciais, sem reparar em alguns defeitos.
Somos uma espécie de bar onde há solitários, fanfarrões, bêbados e sóbrios, todos perdidos entre discussões inúteis e silêncios dispensáveis. Nesse interminável anoitecer, a gente vai ignorando o próprio cinismo. AÃ, defrontamo-nos com esse nem tão estranho desconhecido que nos diz coisas vagamente familiares e que a gente entende mesmo em meio ao maior tumulto. Depois se lembra aonde tinha visto o ilustre e famoso quem: no próprio espelho…!
A gente fica tão distante de si mesmo que nos perdemos em meio a idéias e caminhos embaralhados, atitudes diversas, variadas, indecisas. Coça a cabeça, olha para os lados e senta próximo ao balcão esperando a próxima revelação: uma apresentação formal de nós, por nós, numa imprescindÃvel - ainda que tardia - confraternização.
[Adhemar - São Caetano do Sul, 04a10/10/2005]
8/10/09
O vento cÃclico da pressa se abate sobre o vivente logo após um perÃodo bem vivido. Um perÃodo vivido de fato, com tempo para olhar coisa por coisa, observar calmamente a paisagem e aprender - revivendo - um pouco de história. PerÃodo de hiato na conturbada vida urbana. PerÃodo infelizmente finado, bruscamente interrompido para quem estava praticamente parado!
De volta ao malfadado cotidiano, pouco a pouco aceleramos o ritmo, quase imperceptivelmente. Quando nos damos conta, fomos colhidos no vento cÃclico da pressa. Realizamos as tarefas como autômatos, nunca desafogando a pilha de coisas por fazer e sequer analisando se o que é feito é realmente necessário. Perdido o crivo crÃtico, estamos totalmente engolidos pelo ciclone apelidado de vida moderna. Não prestamos mais atenção aos filhos, aos fatos, à conquista do campeonato, ao disse-que-disse, quem foi que disse, por que é que disse. Esquecemos de telefonar pra mãe, de visitar a vó e de dar um oi aos amigos. O trabalho se avoluma, o dinheiro escasseia e um abraço pra quem fica.
Nesse ponto os nervos já estão em frangalhos, o cérebro cansado e as reações automáticas. O sono já não repousa, ignoramos dores fÃsicas e morais. Muitos sucumbem nessa fase. Um coração estourado, aneurisma, acidente de carro. Parar?! Só esticado no próprio velório. “Tão bom, coitado, tão dedicado…” Que nada! Era só mais um idiota estressado! Um ideal de vida esquecido, uma luta obstinada por nada. Esquecido dos pés no riacho, esquecido do céu estrelado; esquecido o sorriso sincero, a graça de um momento de convÃvio… Presente nessa lembrança torturante só mesmo a covardia de não fazer nada para mudar a própria história…
[Adhemar - São Paulo, 15/08/2006]
28/8/09
O tempo despista os perseguidores; acelera-se ou se retrai marcando os segundos, os minutos e as horas. Daà para dias, semanas e meses é um pulo. Quando nos dermos conta, já foram anos, lustros ou décadas; nós, que atravessamos uma mudança de século! E o tempo sempre adiante, segue em desabalada carreira fazendo-nos dizer asneiras dada a nossa pressa urgente. Hipnoticamente. Com as pálpebras cansadas vemos o tempo despistar seus perseguidores e vemos envelhecer o universo dentro do mesmo tempo, incontido e cruel.
[Adhemar - Boituva, 29/07/2005]
22/8/09
Amada.
Por que e pra que são as únicas perguntas. Lembrar de você, pensar e desesperar num nó: esquecido por ti me pergunto por que. Por que tua obsessiva presença nos meus sonhos? E nos meus pensamentos? A razão da procura está em cada canto onde passo.
Músicas sensÃveis me retiram da realidade e me fazem procurar-te no mais alto onde tu possas estar. Depois, o pensamento se desvia, eu fico triste, registro no bloco os pensamentos opressivos - nesse calor que tua lembrança me traz… Mais uma vez estás aqui, tão viva que já nem posso ver a tua flor.
Sinto vontade de escrever, chorar, escrevo e choro numa esperança insana de te comover; choro pela tua flor morta nessa minha inépcia de te amar desesperadamente…
E é só o que posso fazer.
P/BSF
[Adhemar - São Paulo, 12/10/1987]
Flor morta
Originalmente poesia, este texto foi “recauchutado” para “carta de amor”, enviado ao blog “Duelos Literários” (deve ser postado no último dia do mês) por ser o tema de agosto/09. Na época em que foi escrito, por que e pra que levavam circunflexo no “e”, vejam só! Voltando ao “Duelos” (link ao lado), recomendo passarem por lá, porque há muita coisa legal pra se ler, de muita gente boa mesmo, nesse negócio de escrever.
Adhemar, 22/08/2009.
4/8/09
A pequena coisa branca abriu as asas, se molhou, se sacudiu e voou. Voou só um pouquinho, para saber se já podia. Voltou à fonte e ficou a olhar em volta. Saltitou, depois bebeu. Vislumbrou perigo nuns olhos felinos e mansos. Mansos demais.
Alçou-se mais acima e não parou, pois reptilmente a esperavam noutro galho. Então quedou-se muda e silenciosa, batendo as asas num ponto seguro do ar, acima da fonte.
Pressentiu apenas sob o imenso céu azul a intenção rapina de um ponto que crescia velozmente. Rapidamente decidiu-se num vôo mergulhado e ágil enquanto se esgueirava dos perigos. Foi quando viu os olhos inocentes lhe acenando. Infantil, pensou-se segura e aproximou-se. Mal deu tempo de identificar o estampido: apenas viu o lindo sorriso, sua última visão do mundo que sumia.
Ficou caÃda, toda branca e gotejada de vermelho, doce sÃmbolo da paz.
[Adhemar - Aracaju, 28/01/1988]
1/8/09
Sair para tomar um ar, respirar e… Ver o céu estrelado. Cidade grande não tem céu estrelado. Na cidade grande a gente também não tem tempo de olhar para cima.
Continuar com a mesma ansiedade de antes, agora por saber não poder prolongar a estadia no ar puro, sob o céu estrelado. Calor sem pressa, céu azul - claro de dia, marinho à noite.
Entroncamento de caminhos para um pouco de história: base de bandeirantes aqui perto (Porto Feliz), formação geológica especÃfica mais adiante (Itu)… Enfim, o epicentro de uma paz perfeita. Mas como tudo o que acontece de mau jeito quando a gente leva uma vida errada, fim, acabou. Temos de ir embora.
Retorna a ansiedade angustiada, cresce o mau humor, afloram nossas fraquezas na rotina corrida. Adeus, tranquilidade, até a vista bem viver e bem curtir a natureza…
[Adhemar - Boituva, 21/04/1999]
11/7/09
Sou apegado ao chão; um salto já significa um afastamento demasiado ousado da terra. Subir uma escada só se justifica a partir de uma lógica absolutamente irretorquÃvel e inescapável. Voar, então, nem se fala! Asas delta, pára-quedas, aviões, foguetes e satélites são um produto do delÃrio e da pretensão humana em se igualar a Deus.
Claro que há exceções: por exemplo, quando a gente salta da margem para nadar num rio, ou no mar; quando o pulo, originado por um forte impulso, resulta numa bela cabeçada ao gol; e até na mesmo para defender a bola se o saltador em questão for um goleiro.
Voar para os braços da amada, estar nas nuvens e levitar de felicidade são exemplos de metáforas permitidas, aceitáveis. Flutuar, principalmente a alma desprendida do corpo é a última das metáforas, o melhor dos impasses e, quem sabe, o mais belo ângulo de contemplação da terra e do espaço.
[Adhemar - São Bernardo do Campo, 27/12/2005]
30/6/09
Tem horas que a vida parece música de Bach: uma interminável introdução. A gente vai caminhando de olhos fechados - ou olhando de lado - no rumo do abismo. E não para. A gente está na iminência de fazer uma besteira, e não para. Aà a gente vê que não é mais criança, bate uma saudade danada dos pés de milho, da casca da espiga, de subir em árvore, assustar passarinho, ver carreira de formiga, fazer brinquedo de galhos e pedras, jogar bola na lama, sequestrar as bonecas da irmã, resgatar amigos imaginários, casar com a moça mais bonita do sonho e não querer tomar banho! Lambuzar a cara de doce, brincar no castigo, ler gibi dentro do livro ao invés de estudar… Falar palavrão e ficar repetindo, esquecer papel de bala no chão…
De repente acorda do devaneio, vê que não é mais criança e chega a conclusão de que ser gente grande é um saco! Mas descobre que a criança ainda existe e se a gente deixar ela triste aà é que complica mais!
E não sai da introdução…
[Adhemar - Santo André, 13/10/2008]
7/6/09
De repente me descubro acenando à esmo para tanta gente que me cumprimenta. Alguns acrescentam palavras de apoio e estÃmulo; outros se limitam a breves acenos aprovadores. Enlevado, deixo-me flutuar em frente, olhando para todos os lados e aquiescendo com as manifestações surpreendentes. Em meio a essa algazarra, me pego pensando: “por quê? O que foi que eu fiz de relevante - ou importante? Quem sou eu nesse contexto popular? Um babaca bem promovido? Ou um reles tolo apalermado e convencido?”
De repente me descubro subindo dentro do nevoeiro desse cenário. As pessoas se despedindo, se dispersando até sobrar só um - que nunca vejo. O meu mais ardoroso fã, meu seguidor incansável. Bate palmas, pede bis, aplaude tudo o que eu faço. Uma dúvida me abate: dispenso esse pobre palhaço? Não, muito pelo contrário; o encorajo e alimento. Dou-lhe abrigo, respaldo, incentivo, justifico-o, defendo-o. Afinal, esse fã leva o meu nome, o meu talento e o meu cansaço.
[Adhemar - Santo André, 05/09/2008]